Título: Fazenda não vê risco de inflação
Autor: Frisch, Felipe
Fonte: O Globo, 18/10/2007, Economia, p. 34
Equipe econômica discorda da avaliação do BC sobre pressão nos preços.
BRASÍLIA. O governo trabalhava com a hipótese de o Banco Central (BC) interromper o ciclo de 18 quedas consecutivas da taxa básica Selic, mas discorda da avaliação da autoridade monetária de que há indícios de risco de descontrole da inflação. Tanto na equipe econômica quanto no Palácio do Planalto existe convicção de que o repique inflacionário dos últimos meses foi passageiro e de que o nível histórico de investimentos privados garantirá a oferta de produtos sem estimular reajustes.
Num tom cauteloso, o secretário de Acompanhamento Econômico, Nelson Barbosa, afirmou ao GLOBO na véspera da reunião do Copom que os dados reunidos por sua equipe mostram que, embora a inflação tenha sido pressionada recentemente por itens como o leite, esse fenômeno ocorreu devido a fatores isolados que já estão se dissipando.
Barbosa admitiu que a economia brasileira passará em 2008 por um quadro inédito de, pelo segundo ano consecutivo, ter crescimento elevado com juros reais baixos, o que justifica maior cautela pelo BC. Mas, na prática, ao assegurar que a inflação está sob controle, ele sinalizou que a Fazenda não via necessidade de interrupção nos cortes de juros.
Planalto dá sinais de que quer BC menos conservador
Em alguns círculos, a decisão do BC traz ainda uma apreensão: mais dólares poderão entrar no Brasil, aproveitando o diferencial entre os juros domésticos e os internacionais. Uma valorização adicional do real acentuaria a perda de competitividade dos exportadores.
A angústia é saber quanto tempo demorará a "observação da conjuntura" do BC. Um dos temores é que, para conter uma avalanche de dólares, em vez de cortar juros - que a Fazenda considera a melhor estratégia e que tem o benefício adicional de permitir simultaneamente alívio no pagamento de encargos da dívida - o país acabe arcando com o custo fiscal de emitir títulos para comprar moeda estrangeira e engordar as reservas internacionais, hoje em US$162,890 bilhões.
A avaliação é que a interrupção no corte de juros, porém, não terá o efeito negativo, pelo menos inicialmente, de desestimular os investimentos do setor privado. Isso porque quase todos os seis cortes de juros feitos este ano pelo Copom ainda não se traduziram totalmente em estímulos à economia, conforme o próprio ministro da Fazenda, Guido Mantega, declarou ao GLOBO recentemente.
Admite-se, porém, nos bastidores que essa não era a mensagem ideal que o governo gostaria de passar ao empresariado, especialmente quando promove, como carro-chefe, o Programa de Aceleração de Crescimento (PAC). Desde setembro, o Palácio do Planalto emite sinais ao BC de que gostaria de vê-lo menos conservador.