Título: Para mercado, BC dá sinais nebulosos
Autor: Frisch, Felipe
Fonte: O Globo, 18/10/2007, Economia, p. 34

Comunicação sem `homegeneidade¿ dificulta projeções.

RIO e BRASÍLIA. As expectativas desencontradas que imperavam para a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que terminou ontem, também tiveram como pano de fundo a comunicação do Banco Central (BC) com o mercado. Recentemente, após consolidadas as mudanças na diretoria, ela passou a ser questionada.

Analistas argumentam que o BC emitiu sinais nebulosos sobre sua orientação ao votar sem consenso nas reuniões de abril, junho e julho, deixando evidente a falta de unidade de seus dirigentes. Isso atrapalha a famosa ¿formação de expectativas¿ ¿ um dos trabalhos do BC.

Traduzindo, a falta de clareza impede que o mercado faça projeções com segurança, importantes na hora de decidir aplicações no mercado futuro, por exemplo, que podem implicar na cobrança de uma taxa maior em empréstimos ao consumidor e às empresas na ponta. Ou fazer disparar a previsão de inflação, contaminando os agentes econômicos e dificultando novos cortes de juros.

Nas reuniões de abril, junho e julho os diretores defendiam cortes diferentes da Selic, entre 0,25 e 0,50 ponto percentual. Em setembro, houve unanimidade. Mas, na ata do Copom, o BC deixou claro que chegou a considerar no encontro a possibilidade de se manter a taxa de juros. Acabou optando pelo corte de 0,25 ponto percentual.

Alguns economistas ressaltam ainda que, nos últimos meses, a opinião expressa por parte dos diretores em conversas ocasionais com o mercado ¿mudou drasticamente¿, sem que os indicadores econômicos tivessem dado a mesma guinada.

Esse sentimento entre os economistas ganhou força com as mudanças na direção do BC, sobretudo pela saída de Afonso Bevilaqua, substituído por Mário Mesquita na diretoria de Política Econômica, que não teria o mesmo poder de convencimento dos colegas. Além disso, outros integrantes do BC, considerados menos conservadores, também ganharam peso nas decisões, como o diretor de Assuntos Internacionais, Paulo Vieira da Cunha, e o de Normas, Alexandre Tombini, diluindo um pouco a coesão que existia na composição anterior.

A preocupação com os sinais do BC já está fazendo parte das avaliações dos especialistas. O economista-chefe da corretora Concórdia, Elson Teles, escreveu em seu relatório divulgado esta semana que ¿naturalmente, este timing (da decisão sobre corte ou não de juros) pode depender de fatores subjetivos, ainda mais se levarmos em conta o fato de que a composição atual do Copom tem revelado um baixo grau de homogeneidade no pensamento entre os seus membros¿. (Felipe Frisch e Patrícia Duarte)