Título: EUA querem acordo comercial com o Mercosul
Autor: Passos, José Meirelles
Fonte: O Globo, 18/10/2007, Economia, p. 41
Objetivo do governo americano é isolar politicamente a Venezuela. Áreas serão restritas às de interesses comuns.
WASHINGTON. O governo dos Estados Unidos está dando os retoques finais em uma proposta que pretende apresentar em breve aos quatro países que, até o momento, resistiram em firmar com ele um acordo de livre comércio. Os americanos pretendem sugerir um tratado nesse sentido aos integrantes do Mercosul. Seria a retomada da antiga idéia chamada de "quatro mais um": EUA mais Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai.
A expectativa americana, porém, é mais modesta agora. Tio Sam sabe que não é possível conseguir um acordo amplo. Seu objetivo é encontrar coincidências de interesses em áreas nas quais todos se sintam confortáveis para discutir.
- Está mais do que claro que não dá para fechar acordos bilaterais diretamente com cada um dos quatro países. Tampouco é possível ressuscitar a tentativa de se criar a Alca (Área de Livre Comércio das Américas). Mas acreditamos ser possível encontrar campos que possam trazer benefícios comuns a todos nós - disse ao GLOBO um alto funcionário do governo, ao revelar a iniciativa da Casa Branca.
Idéia é desestimular Chávez a ingressar no bloco
Os Estados Unidos acreditam, agora, que isso seria melhor do que nada. E chegaram à essa conclusão movidos por uma constatação que vai além das questões comerciais e econômicas. Trata-se de uma motivação, ou necessidade política dos americanos: isolar ainda mais a Venezuela.
A aposta é a de que o início de um diálogo para travar um acordo bilateral "quatro-mais-um" serviria, por si só, para desestimular o presidente venezuelano Hugo Chávez a fazer parte do Mercosul. Os estrategistas americanos acreditam que os quatro países do bloco estariam inclinados a estudar possibilidades de um acordo que, embora limitado a determinados setores, seria produtivo e benéfico para ambos os lados.
Aposta é cativar Brasil para atrair os demais países
Embora dirigida a todo o Mercosul, a proposta tem como alvo principal cativar o Brasil para tal idéia, sob a mesma premissa utilizada nas negociações da Rodada de Doha, da Organização Mundial do Comércio (OMC). Ou seja, a de que o Brasil exerce uma forte liderança sobre os demais emergentes:
- O que o Brasil decidir os demais vão atrás - disse ontem o secretário de Comércio, Carlos Gutierrez, em um discurso proferido durante a reunião plenária do Conselho Empresarial Brasil-EUA, em Washington.
Ele fez tal afirmação referindo-se especificamente a Doha, sem mencionar - ou sequer sugerir - a proposta do "quatro-mais-um" que está sendo elaborada. Mas, segundo um dos envolvidos no esquema, tratava-se de "uma receita adequada para ambos os pacientes".
Gutierrez lembrou ainda que os Estados Unidos já fizeram acordos de livre comércio com sete países da América Latina. Além disso, há outros três (Colômbia, Panamá e Peru) que, embora fechados, dependem de aprovação do Congresso americano. Um tratado com os países do Mercosul fecharia o ciclo, que poderia ser definido como uma Alca Light.