Título: PF investiga Edir Macedo e compra da Record
Autor: Freire, Flávio
Fonte: O Globo, 19/10/2007, O País, p. 12

Ministério Público levantou indícios de que "bispo" usa dinheiro de fiéis para aumentar seu patrimônio e de suas empresas.

SÃO PAULO. Com base em indícios reunidos pelo Ministério Público Federal (MPF), a Polícia Federal em São Paulo abriu inquérito para investigar o presidente da Igreja Universal do Reino de Deus, Edir Macedo. Paralelamente à apuração sobre eventuais crimes de falsidade ideológica e contra a fé, a PF retoma a investigação sobre a origem dos recursos usados por Macedo para a compra da Rede Record, como mostrou ontem reportagem da "Folha de S.Paulo". Há suspeita de que o bispo usou o dízimo cobrado de fiéis para construir seu patrimônio pessoal, o que inclui a TV, afiliadas, editora e outras empresas. O inquérito foi aberto no último dia 4.

Macedo e sua mulher são os únicos proprietários da Record São Paulo. Desde janeiro de 2004, tramita na 39ª Vara Cível de São Paulo uma ação movida pelo "obreiro" Waldemar Alves Farias Júnior contra Macedo e a cúpula da Universal.

Nela, Junior alega que Macedo teria conseguido arrecadar com os fiéis US$3,2 milhões para "fechar suas contas com a Receita Federal", em 1997. O dinheiro, segundo a representação, teria sido utilizado pelo "bispo" para ajudar a quitar débitos com a compra da TV. A representação foi encaminhada ao MP pelo então deputado estadual Afanásio Jazadji (DEM).

A procuradora Paula Mantovani, do MP, levantou nos últimos meses indícios sobre irregularidades cometidas pelo "bispo" à frente da igreja. O processo número 2007/61810117315 fornece à PF indícios de que Macedo estaria à frente de um esquema de exploração dos fiéis. A PF vai apurar se o dinheiro recolhido nas igrejas foi utilizado na compra da Record. A assessoria de imprensa da Universal informou que a igreja e o bispo não haviam sido notificados até ontem. A direção da Record também não quis se pronunciar.

Jazadji entregou ao MP cópia de uma declaração em que Macedo afirmava, em 2003, ter rendimento de pouco mais de R$8 mil, quando já era acionista controlador da Record. Além disso, o deputado informa um endereço em Nova York como residência fixa da família Macedo.

Por conta desses fatores, ele relata na representação: "Edir Macedo Bezerra, que controla toda a Iurd, seus templos, bispos, pastores e um império de comunicações, não mais resida no país e tinha recebido apenas R$8 mil a título de rendimentos em 2002. A legislação que disciplina a concessão para exploração de serviços de sons e imagens exige que os diretores executivos dessas empresas sejam brasileiros e residam no país".

Ainda na representação, o ex-deputado lembra de sentença da juíza Marli Barbosa da Silva, de São Paulo: "Em 29 de março de 1990, Edir Macedo Bezerra e sua esposa, Ester Rangel Bezerra, passaram a figurar como promitentes compradores nos contratos relativos à aquisição da Rádio Record e da TV Record, ao mesmo tempo que o sobrinho do primeiro, Marcelo Bezerra Crivella, e sua esposa, Sylvia Jane Crivella, substituíram Odenir Laprovita Vieira no contrato referente à TV Record de Franca. Não possuindo recursos financeiros para adquirirem as ações das empresas de radiodifusão, novos promitentes compradores teriam obtido os valores necessários para a compra através de empréstimos da Igreja Universal". Na ação, ele acusa Macedo de falsidade ideológica.