Título: Lula recua e apóia decisão do Copom
Autor: Rosa, Bruno
Fonte: O Globo, 19/10/2007, Economia, p. 29

Presidente: BC tem autonomia. Mantega diz que aplicação de reservas vai mudar.

LUANDA, BRASÍLIA e WASHINGTON. O governo não deixou transparecer, ontem, a discordância da equipe econômica e do Palácio do Planalto em relação à interrupção, após dois anos, do ciclo de redução dos juros. A taxa Selic foi mantida na última quarta-feira em 11,25% ao ano. Como de praxe, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ministros apoiaram publicamente a decisão do Banco Central. Na capital de Angola, Lula reafirmou que o BC goza da "a autonomia necessária" para conduzir a política monetária e que sua orientação como presidente é a firmeza no controle da inflação:

- Não vamos abdicar do controle da inflação. Quando a inflação cresce, os primeiros a perder são os pobres. Quem começa a pagar o pato são as partes da sociedade que vivem de salário.

No último fim de semana, Lula afirmou à "Folha de S.Paulo" que trabalhava com a continuidade da queda dos juros em outubro, e, caso ela não viesse, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, teria que dar explicações para a mudança de trajetória.

Em Washington para a reunião do FMI, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, também adotou um tom conciliador:

- Temos que esperar a ata do Copom para que haja uma explicação do Banco Central sobre por que interrompeu a queda. Mas queria dizer que do ponto de vista macroeconômico essa interrupção de queda não tem nenhuma repercussão prática. A economia não vai parar de crescer por causa dessa interrupção.

Segundo Mantega, o governo estuda mudar a forma de aplicação das reservas internacionais, com a criação de um fundo soberano:

- Vamos fazer aplicações financeiras em títulos diversificados, de modo a poder apoiar, por exemplo, a internacionalização de empresas brasileiras, a situação da Petrobras ou do BNDES. O que posso dizer é que vamos acumular mais de US$162 bilhões de reservas a partir de um determinado patamar, que poderia, por exemplo, ser de US$170 bilhões ou US$180 bilhões, e vamos separar uma parte para esse fundo, que fará aquisições financeiras dessa natureza.

Em Luanda, o ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, disse que não estão claros a dimensão da crise internacional e o grau de aquecimento da economia do país. E disse que o BC tem razão de ser cauteloso.

(*) Enviado especial (Na África, o repórter viajou em avião da FAB)

(**) Correspondente