Título: Mantega: Banco do Sul competirá com Bird e BID
Autor: Rosa, Bruno
Fonte: O Globo, 19/10/2007, Economia, p. 29

Ministro admite ainda criar um FMI regional para financiamentos, idéia defendida por Lula.

WASHINGTON. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse ontem que determinou que seus auxiliares dêem máxima prioridade à criação do Banco do Sul. Eles foram encarregados de elaborar os estatutos do organismo - o qual, segundo ele, pretende concorrer com o Banco Mundial (Bird) e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) na América do Sul. Mantega disse ainda que o Brasil não descarta a possibilidade de vir também a criar, com seus vizinhos, uma espécie de Fundo Monetário Internacional (FMI) da região.

- Não haverá empréstimos emergenciais (por parte do Banco do Sul), porque esta é outra função. Estamos falando de um banco de desenvolvimento, que financiará projetos. No caso de crises, ainda permanecerá o FMI (como órgão estabilizador). Mas não está descartada a criação de outra instituição que possa vir a suprir o problema de desequilíbrios orçamentários e financeiros dos países - disse, na sede do FMI.

A possibilidade de os emergentes latino-americanos criarem tais instituições mereceu destaque horas antes, durante entrevistas do diretor-gerente do FMI, Rodrigo de Rato, e do presidente do Bird, Robert Zoellick, por causa de uma declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, terça-feira no Congo:

- Nações em desenvolvimento devem criar seus mecanismos de financiamento, em vez de sofrer sob o FMI e o Bird, que são instituições dos países ricos e nas quais não há lugar para nações em desenvolvimento. É hora de acordar. Devemos agir com mais força: a unidade dos países em desenvolvimento nos permitirá fazer essa mudança.

Tanto Rato quanto Zoellick evitaram um confronto. Rato disse que continua contando com a ajuda do Brasil para promover uma reforma interna na instituição que dê mais voz aos emergentes:

- Estive com o presidente Lula em agosto e ele me disse que já havia insistido, com meu predecessor, sobre a necessidade dessa reforma. Eu acho que o Brasil é não apenas um membro importante do FMI, como também muito ativo na sua reforma, e quero contar com a sua visão e enfoque para isso.

Mantega: "briga de foice" para elevar participação

Já Zoellick reafirmou que, sob sua direção - ao contrário do que queria seu antecessor, Paul Wolfowitz -, o Bird dará maior atenção aos países de renda média como o Brasil, inclusive cobrando juros mais baixos.

Mantega argumentou que a iniciativa brasileira tem a ver com a falta de possibilidade do país e de seus vizinhos em conseguir maior influência dentro do Bird e do FMI, mesmo após as reformas dessas instituições:

- Estamos aqui numa briga de foice para tentar elevar a participação acionária do Brasil, de modo que tenha peso político maior. Mas é uma briga grande para sair de 1,4% para... sei lá, 2% ou 2,1%. Então, a possibilidade de ter um peso político maior nessas instituições é remota. É perfeitamente compatível que a gente venha a criar instituições mais próximas de nossos interesses, e que possamos ter influência maior.