Título: Termina o toque de recolher em Mainmar
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Fonte: O Globo, 21/10/2007, O Mundo, p. 44

Junta militar já estaria se sentindo segura o suficiente para atenuar a repressão sobre a população do país.

YANGON. A junta militar que governa Mianmar suspendeu ontem o o toque de recolher imposto depois das manifestações pacíficas lideradas por monges budistas no mês passado. A decisão seria um sinal de que o regime estaria se sentindo seguro o suficiente para afrouxar o controle da população. O anúncio foi feito um dia depois da declaração do presidente George W. Bush sobre o endurecimento das sanções americanas contra a junta militar. Bush pediu à China e à Índia que reforcem suas pressões sobre sobre o governo de Mianmar.

Os moradores da cidade informaram que caminhões equipados com alto-falantes anunciaram a decisão, que também determinou o fim da proibição de reuniões com mais de cinco pessoas. A divulgação do fim do toque de recolher também foi feita através de um comunicado oficial divulgado pela televisão.

No último fim de semana, a junta militar restabeleceu o acesso à internet, após mais de duas semanas de intervenção na conexão à rede para evitar a divulgação de imagens dos protestos nos países estrangeiros e o conseqüente aumento da pressão internacional. No entanto, as autoridades continuam interditando o acesso ao país da imprensa estrangeira como a BBC, a Voice of America ou órgãos jornalísticos dirigidos por opositores no exílio.

A junta militar havia instaurado o toque de recolher em Yangon, principal palco das manifestações, na noite de 25 de setembro, após uma série de protestos pacíficos liderados por monges budistas contra o regime militar no país.

O governo afirma que os confrontos resultaram na morte de 10 pessoas e na prisão de outras 3 mil. Fontes da dissidência calculam, no entanto, que o número de mortos é de cerca de 200 e que os detidos superam os 6 mil.

Prisões continuam, denunciam opositores

O toque de recolher havia sido instaurado inicialmente das 21h às 5h. Há uma semana, os militares reduziram o controle para quatro horas diárias, das 23h às 3h. Segundo a oposição, as prisões continuaram a ocorrer apesar da pressão internacional para que houvesse um diálogo com a oposição, liderada pela vencedora do prêmio Nobel da Paz e líder da Liga Nacional pela Democracia Aung San Suu Kyi, sob prisão domiciliar desde 2003.

O enviado especial das Nações Unidas, Ibrahim Gambari, está viajando por países asiáticos em busca de apoio para convencer os generais de Mianmar a conversarem com Suu Kyi. Mês passado, Gambari pediu à junta militar a libertação de todos os presos políticos e os detidos durante as manifestações.

Na próxima semana, Gambari irá à Índia e à China, países que têm fronteiras com a Mianmar e que são considerados os mais influentes sobre o regime. A China é um importante parceiro comercial e fornecedor de armas para Mianmar. Logo, o sucesso de qualquer campanha internacional no país depende do apoio de Pequim.

A junta havia admitido estabelecer comunicação com Suu Kyi, se ela desistisse de pontos-chaves de sua posição e parasse de propor o boicote econômico da comunidade internacional.

Na terça-feira, em Jacarta, Gambari disse que a China, o mais próximo aliado da junta, deve ampliar os esforços para encorajar os generais a negociar com Suu Kyi.