Título: Bolsa de SP, mais concentrada do que nunca
Autor: Rosa, Bruno
Fonte: O Globo, 22/10/2007, Economia, p. 18

Dez maiores empresas respondem por 55,63% do Ibovespa. Especialistas mostram como driblar problema.

A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) está perto de bater seu 40º recorde do ano e parece estar conseguindo atravessar sem maiores danos a turbulência que vem afetando o mercado financeiro mundial. Mas guarda na composição de seus índices uma parcela a mais de risco: o mercado de capitais do maior país da América Latina está mais concentrado do que na década de 80. As dez maiores empresas da Bolsa respondem hoje por 55,63% do Ibovespa ¿ índice que reúne as ações mais negociadas. Há 20 anos, o número era 50,79%. Para o investidor, a composição mostra seu lado mais perverso: Petrobras e Companhia Vale do Rio Doce respondem sozinhas por 33,10% dos negócios, deixando, portanto, a rentabilidade das aplicações ao sabor das cotações do petróleo e das commodities metálicas no mercado mundial.

O estudo foi feito a pedido do GLOBO pelo professor Alexandre Espírito Santo, chefe do departamento de economia e finanças da ESPM-RJ e sócio da Plenus Gestão de Recursos. Quando se analisa outros dois importantes índices da Bolsa, o IBrX 50 e o IBrX, a concentração é ainda maior. No IBrX 50, que reúne as 50 ações mais negociadas da Bolsa, as dez maiores empresas representam 74,58% do indicador. No IBrX, grupo dos cem papéis, 69,82% estão na mão de dez companhias. Assim, o movimento de alguns papéis tende a derrubar ¿ ou elevar ¿ os ganhos para o investidor que aplica em fundos de ações passivos, ou seja, que acompanham o desempenho dos índices.

Aplicar em fundos ativos é alternativa, dizem analistas

¿ O alto nível de concentração é perigoso, mas reflete apenas o que é a economia brasileira. Quando as ações das duas empresas sobem, parece não haver problemas. Porém, quando um dos papéis cai, essa concentração mostra seu lado ruim. Nos países desenvolvidos, os pesos das companhias são mais homogêneos ¿ afirma o economista responsável pela pesquisa.

Segundo analistas, uma alternativa para driblar o problema é investir em fundos ativos, ou seja, que não acompanham as oscilações dos índices, pois pode-se montar um grupo de ações de diferentes setores. Outra opção é selecionar papéis que ainda têm potencial de crescimento.

¿ Assim, o investidor consegue escapar da concentração. Deve-se salientar que o mercado evoluiu muito em relação à década passada, quando a Telebrás tinha peso de 53,11% na Bolsa. O país está no caminho certo, mas o processo é longo. No entanto, já estamos melhor que o México, por exemplo, onde a America Movil, de Carlos Slim, tem fatia de 24,37% na composição do IPC, o principal índice da bolsa mexicana ¿ diz Espírito Santo.

Segundo André Lago Jakurski, gestor de renda variável do The Bank of New York Mellon, o investidor deve diversificar sempre as aplicações.

¿ O brasileiro ainda encontra uma bolsa muito concentrada. E qualquer movimento da Vale ou da Petrobras pode alterar a rentabilidade de quem aplica em fundos atrelados aos índices da Bolsa. A seleção de ações variadas é a melhor opção ¿ ressalta Jakurski.

Outra boa forma, continuam os especialistas, é aplicar parte dos recursos em fundos multimercados, que investem uma parcela do patrimônio em ações de empresas.

Levantamento feito por José Francisco Cataldo, analista da corretora do Banco Real, ressalta que, se ainda forem levados em conta nomes como CSN, Gerdau e Usiminas, a concentração no Ibovespa só em commodities sobe para quase 40%. No índice americano S&P, por exemplo, o setor petrolífero tem peso de 6,8%.

¿ Fica claro que ainda há grande concentração no Brasil, por isso a Bovespa é bem mais volátil em relação às bolsas dos países desenvolvidos ¿ aponta Cataldo.

Para Tomás Málaga, economista-chefe do Itaú, o caminho natural da Bovespa é a maior pulverização. Segundo ele, o movimento também será reflexo do crescimento da economia, que deixará o país menos dependente das exportações de commodities.