Título: Uma incógnita na cena externa
Autor: Figueiredo, Janaína
Fonte: O Globo, 23/10/2007, O Mundo, p. 25

Política de Kirchner é marcada por atitudes contraditórias e influências internas.

Depois de quatro anos e meio de governo, o presidente argentino, Néstor Kirchner, continua sendo uma incógnita para os analistas de política internacional. Para especialistas argentinos, explicar a colegas estrangeiros quem é Kirchner e qual é sua política externa é quase uma missão impossível. O presidente costuma atacar os EUA, mas defende a aprovação de leis bem-vistas pela Casa Branca, como a lei antiterror votada recentemente pelo Congresso. Kirchner diz ser aliado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas faltou a importantes reuniões regionais, como o encontro do Grupo do Rio de 2004, no Rio de Janeiro. Em discursos no exterior, o presidente defende o pluralismo, mas internamente ignora o Congresso, critica e discrimina a imprensa opositora e governa com um círculo pequeno de colaboradores, entre eles a primeira-dama Cristina Kirchner, favorita na eleição presidencial de domingo.

- Quando me perguntam sobre Kirchner no exterior, sempre digo a mesma coisa: ele não é (o chileno Ricardo) Lagos, nem (Fernando Henrique) Cardoso, mas também não é (o venezuelano Hugo) Chávez nem (o boliviano Evo) Morales - afirmou ao GLOBO o diretor do mestrado em estudos internacionais da Universidade Torcuato Di Tella, Roberto Russell.

Mercosul está paralisado, afirma analista

Na visão do analista, "Kirchner é um peronista que exerce com firmeza o poder e defende um modelo de desenvolvimento, mas sua política externa é muito desarticulada e está profundamente condicionada pelo cenário interno".

- Falta uma orientação clara do governo em matéria de política exterior - enfatizou.

O relacionamento com o Mercosul, disse o professor, "avançou muito pouco".

- O Mercosul hoje está paralisado. Os países não negociam em conjunto com outros blocos internacionais, o Brasil atua sozinho e a Argentina não consegue resolver seus conflitos com o Uruguai - comentou Russell.

A guerra entre os presidentes Kirchner e Tabaré Vázquez foi desencadeada pela construção de uma fábrica de celulose na fronteira com a Argentina. Sob forte pressão dos moradores da cidade argentina de Gualeguaychú, a Casa Rosada exigiu a suspensão das obras, alegando que a fábrica contaminaria o meio ambiente da região. Vázquez manteve sua posição e hoje, após mais de dois anos, os dois presidentes não se falam.

Para o ex-secretário da Indústria Dante Sica, diretor da empresa de consultoria Abeceb.com, "a política externa de Kirchner foi errática".

- A Argentina sempre deu mais importância à política interna e Kirchner reforçou isso. No exterior, ele privilegiou os países da região, o que não quer dizer que não tenham existido problemas - explicou Sica.

Segundo ele, os países mais bem tratados pela Argentina nos últimos quatro anos e meio foram Venezuela, Bolívia e Brasil.

- Com o Chile o relacionamento foi tenso, muito em função das exportações de gás - comentou Sica, lembrando a freqüente suspensão, pela Argentina, do envio de gás para o Chile, criando complicações para o país.

No caso do Brasil, o economista argentino considera que o governo Lula foi solidário com a Argentina, apesar dos conflitos comerciais.

- Os primeiros anos do governo foram marcados por conflitos comerciais, mas o governo brasileiro foi solidário e nos ajudou em nosso processo de recuperação - disse Sica.

O relacionamento com os países europeus, assegurou Russell, "foi complicado, em grande medida pela decisão do governo de congelar as tarifas dos serviços públicos". Empresas espanholas e francesas, entre outras, têm forte presença no setor de serviços da Argentina, e a política de congelamento de tarifas contaminou, desde o início do governo, o vínculo entre Kirchner e os países europeus. A renegociação da dívida pública foi outro fator negativo.

- O governo argentino se manteve bastante isolado. Kirchner é um presidente que não se sente seguro em reuniões multilaterais - comentou o professor da Universidade Di Tella.

As contradições da política externa argentina são evidentes nas relações com os EUA e com a Venezuela. Kirchner se aliou ao governo Chávez, mas atacou o Irã, parceiro da Venezuela, na última Assembléia Geral da ONU, acusando Teerã de não colaborar com as investigações sobre o atentado contra a Amia, em 1994.

- Não podemos dizer que não existe uma política, ela existe e é contraditória. Kirchner é, basicamente, um presidente pragmático - disse Russell.