Título: Beltrame diferencia ações nas zonas Norte e Sul
Autor: Vasconcelos, Fábio
Fonte: O Globo, 24/10/2007, Rio, p. 19

"Um tiro em Copacabana é uma coisa. Um tiro na Coréia, no Alemão, é outra", diz secretário, sendo criticado pela OAB.

Uma declaração do secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, reacendeu ontem a discussão sobre as recentes operações da polícia em favelas. Em entrevista pela manhã à Rádio CBN, o secretário admitiu que um tiro em Copacabana era diferente de um disparado em comunidades como a Favela da Coréia e o Complexo do Alemão. A frase foi suficiente para receber críticas da OAB-RJ. O governo, no entanto, explicou que, na mesma entrevista, Beltrame havia acrescentado que se referia às estratégias de ocupação, que devem ser distintas devido à alta densidade demográfica de bairros como Copacabana.

O secretário fez a declaração ao chegar ao seminário "Desafios da gestão pública de segurança", realizado na Fundação Getúlio Vargas. Ele informava que traficantes da Zona Norte estão migrando para morros da Zona Sul, porque nessa região é mais difícil para a polícia fazer operações. E afirmou:

- Buscá-los (os traficantes) na Zona Sul, no Dona Marta, no Pavão-Pavãozinho, eu (polícia) estou muito próximo da população. É difícil a polícia ali entrar. Porque um tiro em Copacabana é uma coisa. Um tiro na Coréia, no Alemão, é outra.

Em nota, ainda no meio da tarde, a presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ, Margarida Pressburger, criticou a posição do governo: "O secretário assumiu publicamente que, para o governo, o morador de classe média da Zona Sul recebe tratamento diferente e tem direitos de cidadania que o trabalhador que mora na favela não tem, quando é obrigado a ficar no fogo cruzado dos policiais com os traficantes, tem sua casa invadida por uns e por outros e não tem onde se abrigar".

No mesmo documento, Margarida acrescentou que a OAB defende igualdade na aplicação dos direitos de cidadania, para pobres ou ricos, e que repudia a política de confronto. "Será que a polícia atiraria em quem corresse (na Zona Sul)? Será que as pessoas que hoje criticam a defesa dos direitos humanos para qualquer cidadão apoiariam essas operações de guerra (na Zona Sul)?", observou Margarida.

Na entrevista na FGV, perguntado novamente pelos repórteres sobre as operações na Zona Sul, Beltrame lembrou que as ações da polícia nessa região vão continuar, mas deu a seguinte explicação:

- Vemos isso (operações na Zona Sul) com dificuldade. É difícil. Nós vamos ter que, cada vez mais, aprimorar nosso trabalho. Teremos que, cada vez mais, aprimorar nossa inteligência para sempre preservar vidas. Se nós tivermos que ir lá, nós vamos. Esta é a nossa grande proposta. Nós não podemos, nessas áreas, nos deixar levar por esse tipo de afronta do tráfico - acrescentou.

Em seguida, os jornalistas pediram mais detalhes sobre a diferença entre as ações nas zonas Norte e Sul que Beltrame havia comentado.

- Acho que o critério que vejo é geográfico (Zona Sul/Norte). Temos prédios (na Zona Sul) muito próximos uns dos outros. O cidadão que mora na Zona Sul paga o mesmo imposto que aquele que mora da Zona Norte. O critério de atuação é diferente porque uma coisa é atuar em favela plana, outra coisa é atuar numa favela de morro. O critério é de planejamento - finalizou o secretário.