Título: Imposto favorece o peleguismo, diz sociólogo
Autor: Doca, Geralda
Fonte: O Globo, 26/10/2007, O País, p. 8

Ele defende, porém, um debate amplo antes de as regras serem mudadas.

SÃO PAULO. O imposto sindical, criado em 1943 no governo Getúlio Vargas, é um instrumento para a perpetuação de dirigentes sindicais no poder e favorece o "peleguismo". Mas sua extinção súbita, nos moldes em que foi aprovada pela Câmara na semana passada, pode ser um golpe fatal no movimento sindical brasileiro. A opinião é do sociólogo Francisco Oliveira, professor emérito da Universidade de São Paulo (USP).

- Há uma regressão mundial. O número de trabalhadores sindicalizados está em queda livre no mundo todo. No sindicalismo brasileiro, que é acostumado a não trabalhar pelas suas finanças, o fim do imposto pode ser um chute na canela - disse Oliveira. Segundo ele, em vez de uma medida do Congresso, seria mais importante um debate amplo sobre as formas de financiamento do movimento sindical brasileiro.

- Há um efeito de perpetuação de dirigentes no poder. Em muitos casos eles utilizam os recursos do imposto para medidas assistencialistas. É uma burocracia sindical que se mantém graças ao imposto. Faria bem ao movimento sindical uma reavaliação, mas não é uma tarefa fácil e teria que abordar também o lado patronal - disse Oliveira.

Para o sociólogo, o fato de o governo Lula estar repleto de ex-sindicalistas cria uma relação promíscua:

- A promiscuidade é total, principalmente no governo Lula, mas em governos anteriores isso também acontecia com o lado patronal, talvez em proporções maiores. Infelizmente é do jogo.

Historicamente, tanto a CUT quanto a Força Sindical, o PT e o próprio Lula sempre foram contrários ao imposto, que consideravam a fonte do "peleguismo" no movimento sindical brasileiro. Na Constituinte de 1988, o então deputado petista Luiz Gushiken chegou a propor o fim do imposto.

- Lutamos contra o imposto por muitos anos, com medidas concretas, mas nunca conseguimos derrubá-lo. Qual não foi nossa surpresa quando vimos quer a emenda foi aprovada? - disse Denise Daut, secretário nacional de organização da CUT.

As centrais e o governo alegam que não houve incoerência ou mudança de posição. Justificam a pressão sobre o Senado por discordarem da maneiro como foi aprovado.

- Foi na calada da noite, nos 15 minutos finais do jogo do Brasil (contra o Equador). Uns 150 deputados estavam vendo o jogo e nem sabiam direito no que estavam votando - diz o deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), o Paulinho, presidente da Força Sindical.

Já o ex-ministro e deputado cassado José Dirceu (PT-SP) defendeu em seu blog o fim do imposto. "Que precisa acabar, precisa. Se de forma gradual ou de uma vez, como faz a emenda aprovada na Câmara. Mas nós do PT e da CUT, que sempre defendemos o fim do imposto sindical compulsório, não podemos apenas denunciar e protestar pelo "oportunismo", "busca de notoriedade" ou o quer que seja, do deputado que apresentou a emenda (...) Vamos ser coerentes com nossa histórica luta contra o peleguismo e os sindicatos dirigidos pelo Estado. Um mínimo de compostura faz bem", escreveu.