Título: E a locomotiva corre...
Autor: Scofield Jr., Gilberto
Fonte: O Globo, 26/10/2007, Economia, p. 25

China cresce 11,5% e logo deve passar Alemanha como terceira economia global

Aeconomia da China cresceu 11,5% no terceiro trimestre de 2007 e no acumulado dos nove meses, em comparação com os mesmos períodos do ano passado, informou ontem o Escritório Nacional de Estatísticas (ENE), o IBGE chinês. Com isso, o Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos no país) da China está mais perto de ultrapassar o da Alemanha este ano, transformando a economia chinesa na terceira maior do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e do Japão.

Ano passado, a economia alemã somou US$2,89 trilhões, enquanto o PIB chinês ficou em US$2,79 trilhões. Se a China mantiver seu nível de crescimento na faixa de 11,5%, calcula o estatal "China Securities Journal", a economia fechará 2007 em US$3,11 trilhões. A Alemanha, por sua vez, se mantiver o crescimento previsto de 2,5% para o ano, fechará 2007 com um PIB de US$2,96 trilhões.

O economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, diz que, pelas previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI), a China só ultrapassa a Alemanha no ranking das grandes economias, ocupando o terceiro lugar, no ano que vem. Mas o próprio economista reconhece que essa nova posição da China pode acontecer ainda este ano. O FMI prevê que o país asiático vai crescer 11,5% este ano.

- É uma diferença de apenas US$11 bilhões, e o FMI tem uma projeção de crescimento para a Alemanha bastante otimista, de 2,4%. O que está segurando a Alemanha é a valorização do euro frente ao dólar. Mas a chance de a China ocupar a terceira posição é grande - disse Agostini.

Para governo, não há superaquecimento

Apesar das taxas de aumento acelerado da economia chinesa; de a inflação ter fechado os nove primeiros meses do ano em 4,1% anualizados (enquanto a meta do governo para o ano é de 3%); e de a expansão dos investimentos em ativos fixos (infra-estrutura, imóveis e equipamentos) ter atingido 25,7% no ano, representando 40% do crescimento total do país, o porta-voz do ENE, Li Xiaochao, afirmou que a economia chinesa não está superaquecida e que o processo de crescimento se mantém sob controle.

- Tanto o crescimento do PIB quanto a inflação recuaram. A alta da economia passou de 11,9%, no segundo trimestre, a maior dos últimos 12 anos, para 11,5% no terceiro. E a inflação subiu 6,2% em setembro, enquanto a taxa foi de 6,5% em agosto - disse Li.

Pode ser. Mas essas pequenas desacelerações - de 0,4 ponto percentual, no caso do PIB, e de 0,3 ponto percentual, na inflação - não são vistas como um recuo real pelos analistas asiáticos, que ainda consideram a economia chinesa aquecida acima do normal. Com o temor de novas medidas do governo para frear o avanço, como aumento de juros, a Bolsa de Xangai caiu 4,8% ontem.

- A entrada espetacular de dólares na China e o crescimento do crédito estão mostrando que os instrumentos usados pelo Banco Central da China para controlar a expansão da economia estão perdendo sua eficácia - disse o analista Paul Cavey, do banco australiano Macquarie.

Segundo o ENE, o saldo comercial acumulado da China com o mundo foi de US$185,7 bilhões nos nove primeiros meses, enquanto o investimento direto alcançou US$47,2 bilhões, alta de 10,9% em relação ao mesmo período do ano passado. Essa enxurrada de dólares fez as reservas chinesas atingirem US$1,433 trilhão mês passado, 45,1% acima de setembro de 2006.

- Estamos olhando com cuidado para o cenário internacional, a turbulência no mercado financeiro, a ameaça de desaquecimento nos EUA e os altos preços do petróleo, mas acredito que a China manterá sua trajetória de crescimento, a despeito desses problemas - afirmou Li.

Alta de preços ainda preocupa

Mas o que preocupa os chineses, no fundo, é o próprio bolso. A inflação se manteve perigosamente alta em setembro: o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) anualizado foi de 6,2%, apenas 0,3 ponto percentual abaixo dos 6,5% de agosto, o maior da década. E a trajetória acumulada mostra uma persistente alta - 3,2% nos primeiros seis meses de 2007, 3,5% em sete meses e 3,9% em oito meses, atingindo 4,1% em setembro. Ainda assim, Zhu Zhixin, vice-diretor da Comissão Nacional de Reforma e Desenvolvimento (CNRD), espécie de Ministério do Planejamento chinês, negou um cenário de descontrole:

- O nível dos preços tende a se manter alto por algum tempo por causa de pressões sazonais ou extraordinárias, como as quebras de safra, mas as taxas não se manterão elevadas a longo prazo.

Zhu afirmou que o governo está trabalhando para aumentar a oferta de produtos que estão com preços elevados, como a carne de porco (afetada por uma zoonose) ou alguns grãos, e, ao mesmo tempo, atento a setores que aproveitam a pressão de alguns itens alimentícios para aumentar seus preços, inibindo reajustes sem fundamento.

- Estamos atentos à manipulação de preços, mas o problema da alta dos custos dos alimentos é uma questão enfrentada por vários países hoje - afirmou.

COLABOROU Cássia Almeida