Título: Norte e Nordeste disputam profissionais
Autor: Éboli, Evandro
Fonte: O Globo, 28/10/2007, O País, p. 3

Prefeituras de regiões pobres chegam a oferecer salários de R$20 mil para médicos.

BRASÍLIA. O desinteresse dos médicos em trabalhar em regiões pobres e longe dos grandes centros urbanos do Sul e Sudeste gera uma disputa acirrada entre as prefeituras de Norte e Nordeste na contratação desses profissionais. A escassez de mão-de-obra acarretou um leilão de médicos nessas localidades. Os gestores chegam a oferecer salários de até R$20 mil para fixar o médico na sua cidade.

Levantamento feito em 2006 pelo Núcleo de Educação em Saúde Coletiva (Nescon) da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) constatou que o salário médio pago ao médico que trabalha no Saúde da Família na Região Norte chega a R$7,5 mil. No Sudeste, um médico desse programa recebe, em média, R$5,2 mil.

- Quanto mais afastada a cidade, menor o desenvolvimento da região e a chance de fixar o profissional, e maior é o salário do médico e do resto da equipe do Saúde da Família - diz o médico sanitarista Raphael Aguiar, pesquisador do Nescom.

Os profissionais do Saúde da Família são contratados diretamente pela prefeitura, sem prestar concurso. Eles fazem contratos temporários e não têm direitos trabalhistas, como carteira assinada e recolhimento para aposentadoria. Muitos municípios terceirizam esse serviço e transferem a contratação para entidades filantrópicas, por exemplo. Essa insegurança trabalhista é outro motivo que afasta os médicos do programa. Por essa razão, eles buscam outros empregos informais.

Para Raphael Aguiar, a duplicidade de contratações no Saúde da Família precisa ser combatida. Segundo ele, esse duplo emprego fere o princípio do programa.

- O médico tem que se dedicar a um grupo específico. Ele precisa ser o responsável por uma comunidade, ter compromisso com o paciente. Não deve ser como um médico convencional, que prescreve a receita e nunca mais vai ver o paciente, que, quando retornar, será atendido por outro colega - disse Raphael.

Secretário sugere criar carreira do médico do Saúde da Família

O secretário de Saúde da Bahia, Jorge Solla, afirmou que no estado ocorre uma acirrada competição na busca por médicos.

- Quem oferece mais leva. Há municípios que pagam R$15 mil por dois dias de trabalho - disse Solla.

O secretário baiano, um entusiasta do programa, afirmou que a solução é criar a carreira do médico do Saúde da Família.

- Apesar de todos os problemas, o programa é um sucesso. Se consolidou como principal estratégia de atenção básica. Graças a ele, milhares de municípios no Brasil oferecem algum tipo de atendimento, o que não ocorria antes.