Título: Um difícil legado na Argentina
Autor: Figueiredo, Janaína
Fonte: O Globo, 28/10/2007, O Mundo, p. 36
Sucessor de Kirchner terá que enfrentar inflação, pobreza e rejeição da classe média.
Depois de uma campanha que não conseguiu despertar o entusiasmo de grande parte dos 27 milhões de eleitores argentinos, o país enfrentará hoje uma nova eleição presidencial, da qual surgirá o sucessor de Néstor Kirchner, no poder desde maio de 2003. O cenário mais provável, indicaram as últimas pesquisas, seria a vitória da primeira-dama Cristina Kirchner no primeiro turno. No entanto, até os últimos minutos da campanha, analistas locais não se atreviam a descartar um eventual segundo turno. A principal rival é Elisa Carrió, líder da Coalizão Cívica, um movimento de centro-esquerda que nasceu para disputar esta eleição. Já o ex-ministro da Economia Roberto Lavagna, à frente de Uma Nação Avançada (UNA), ficaria em terceiro lugar, apesar de contar com o apoio de um setor do peronismo e também da União Cívica Radical (UCR).
Negociação com Clube de Paris
Com ou sem segundo turno, Cristina foi a grande estrela da campanha. Ao lado do marido, de todos os ministros do Gabinete e de grande parte dos governadores e prefeitos peronistas, a primeira-dama consolidou sua liderança desde o início, sem grandes obstáculos. Os problemas, afirmaram analistas, deverão surgir durante seu eventual governo, já que a Argentina ainda arrasta sérias dificuldades econômicas, políticas e sociais, que não foram resolvidas por Néstor Kirchner.
¿ Se vencer, Cristina deverá enfrentar muitos desafios: governar não será tão fácil como foi liderar a campanha. Em matéria econômica, temos uma inflação alta, faltam investimentos e temos de contornar falências no setor energético para não sofrermos um apagão como no Brasil ¿ disse Sergio Berenztein, da consultoria Poliarquia.
O analista lembrou que o país deverá encarar seriamente uma negociação com o Clube de Paris, por uma dívida estimada em US$6,5 bilhões, e também algum tipo de negociação com credores privados que não participaram da operação de reestruturação da dívida pública, e que detêm cerca de US$20 bilhões em bônus argentinos. A Argentina também deveria tentar recompor seu péssimo relacionamento com o Fundo Monetário Internacional (FMI), para selar um entendimento com o Clube de Paris.
¿ O próximo governo precisará resolver a falta de crédito, um drama que afeta, sobretudo, a classe média, setor em que o índice de rejeição a Kirchner é grande. O aumento dos juros também é uma questão pendente ¿ afirmou Berenztein, que ressaltou o aumento do gasto público na gestão Kirchner. ¿ A falta de apoio ao governo nos setores médios não pode ser ignorada. O mesmo aconteceu com (Carlos) Menem, reeleito em 95, mas o desgaste na classe média acabou gerando ódio contra ele, um ódio que impediu seu retorno em 2003.
Nos últimos meses, muitos argentinos se perguntaram o que fará Kirchner se Cristina virar presidente. Embora ela insista em dizer que ele continuará fazendo política, outras versões indicam que o presidente controlaria o Ministério da Economia nas sombras, papel que Kirchner já desempenhou em seu governo. Todos os dias o presidente recebe um relatório, preparado por funcionários do Banco Central, com a situação das finanças e, ao contrário de outras épocas, é quem anuncia o resultado de indicadores-chave, como inflação e pobreza.
A pobreza é, justamente, uma das heranças de Kirchner. Embora o índice tenha recuado de forma expressiva, os dados oficiais indicam que 26% dos argentinos ainda vivem em condições muito precárias.
¿ A dívida social é grande, o Estado está em crise e com ele os serviços de saúde e educação ¿ diz Berenztein.
Divisão de poderes preocupa
Para Jorge Giacobe, da Giacobe e Associados, embora a lista de problemas seja ampla e variada, ¿um possível governo de Cristina terá mais continuidade do que mudança¿.
¿ O eleitor de Cristina, na verdade, está votando em Néstor. Em nossas pesquisas as pessoas nos diziam que pretendiam votar em Cristina, para devolver um favor ao governo. Esse fenômeno é muito forte, sobretudo nas classes mais baixas ¿ disse Giacobe.
Depois de um governo que adotou grande parte de suas medidas por decreto (Kirchner aprovou 249 decretos de necessidade e urgência, contra apenas 176 projetos de lei enviados ao Congresso), outro dos aspectos questionados pela oposição é a falta de uma real divisão de poderes no país.
¿ Hoje temos um hiperpresidencialismo que asfixia o Congresso e a oposição. Não vejo mudanças se a presidente for Cristina. Ela foi senadora e contribuiu para este processo ¿ disse Berenztein.
Para Giacobe, ¿a primeira-dama tem uma visão política mais ampla que a de seu marido, sobretudo no que se refere ao cenário internacional¿:
¿ O que Cristina não tem é experiência de governo, essa é a principal diferença com o presidente.
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