Título: Novo apagão aéreo no horizonte
Autor: Doca, Geralda; Gois, Chico de
Fonte: O Globo, 29/10/2007, O País, p. 3

Divergências entre Jobim e Zuanazzi dificultam plano para evitar caos nos feriadões.

Aqueda-de-braço entre o ministro da Defesa, Nelson Jobim, e o presidente da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), Milton Zuanazzi, está dificultando a elaboração de um plano de contingência para os próximos feriadões - Finados, em 2 de novembro, e Proclamação da República, em 15 do mesmo mês - e as festas de Natal e Ano Novo. A briga - causada pela resistência de Zuanazzi, cacifado por uma ala do PT, a deixar o posto - impede a articulação dos principais órgãos responsáveis pelo setor aéreo, o que poderá resultar em novos transtornos para os passageiros nos aeroportos.

Depois dos problemas nos terminais de São Paulo no retorno do fim de semana do GP Brasil de Fórmula 1, que levou ao aumento do movimento e à suspensão das operações em Congonhas, a Infraero pretende formular esta semana um conjunto de medidas para prevenir o caos em datas de tráfego ainda mais intenso. A ação da estatal, no entanto, é limitada e o plano só dará certo com fiscalização rigorosa da agência junto às companhias áereas. O diálogo, porém, está complicado.

Segundo fontes da Infraero, a estatal planeja reforçar o efetivo nos aeroportos, nas áreas de embarque e desembarque, nas ouvidorias e nos balcões de atendimento, além de aumentar o espaço nas filas de check-in. O problema é que se a Anac não exigir, por exemplo, que as companhias prestem informações corretas e rápidas sobre a situação dos vôos, os painéis continuarão com dados incorretos.

Muitas vezes, o vôo é confirmado, o passageiro faz o check-in e, na sala de embarque, fica sabendo que o avião não chegou ou nem decolou do aeroporto de origem. O aviso de vôo atrasado pode significar, na verdade, vôo cancelado, mas o consumidor só fica sabendo horas depois. Em outras situações, o usuário fica esperando dentro do avião. Há casos em que só no meio da viagem é dada a informação de que o pouso será em outro aeroporto.

FAB e Infraero não se entendem

Além das companhias aéreas, a Aeronáutica é responsável por prestar informações claras sobre a situação dos vôos. Na semana passada, no entanto, Infraero e Aeronáutica não se entenderam sobre as causas do fechamento de Congonhas no domingo retrasado. Enquanto a estatal dizia que houve pane no sistema de freqüência, a FAB atribuía a paralisação das operações ao mau tempo.

A situação revela que, três meses após a posse de Jobim, os órgãos responsáveis pelo setor aéreo continuam desarticulados. Para não ser acusado de prestar informações incorretas ao passageiro, fontes da Infraero contam que o presidente da empresa, Sérgio Gaudenzi, pretende pedir a Jobim que cobre uma ação mais rigorosa da Anac junto às companhias aéreas.

Jobim e Zuanazzi, no entanto, continuam se enfrentando publicamente, o que dificulta a elaboração da ação coordenada. Aliada a Jobim, a Infraero acaba, com isso, não discutindo diretamente com a Anac. Essa, por sua vez, goza de independência administrativa.

Assessores de Zuanazzi dizem que ele não está disposto a entregar o cargo, assegurado por mandato. Já a assessoria do ministro continua afirmando que haverá uma renovação total nos quadros da Anac. Zuanazzi deixaria o órgão, depois que os três novos diretores assumissem , quando então Jobim indicaria Solange Vieira (atualmente na Secretaria de Aviação Civil) para seu o lugar.

Nesta semana, deve tomar posse na Anac o brigadeiro Allemander Jesus Pereira Filho e, na próxima, entrariam o economista Marcelo dos Guaranys e o engenheiro Alexandre Gomes de Barros. Porém, um dos primeiros nomes a ser indicado por Jobim, o do engenheiro Claudio Jorge Pinto Alves, ainda não seguiu para o Palácio do Planalto.

A vaga de Alves pode ser destinada a Solange, se Zuanazzi insistir em permanecer na Anac como diretor e abrir mão apenas da presidência, que então seria ocupada pela própria Solange. Segundo fontes próximas a Zuanazzi, ele tem sido aconselhado a resistir no cargo porque tem a prerrogativa do mandato, além de ter acumulado experiência no setor e não pesar contra ele acusação grave.

Segundo um parlamentar do PT, Zuanazzi tem o apoio dos colegas petistas do Sul e de alguns de São Paulo, além de contar com a simpatia da chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, o que lhe daria condições de permanência na função. Para esse deputado, o presidente da Anac "tem conhecimento dos assuntos de sua área" e não é certo tentar afastá-lo argumentando que ele é incompetente. O petista considera que a questão envolvendo a permanência de Zuanazzi ou não na presidência da agência passou a ser político-partidária:

- Há um viés partidário nisso tudo: como ele foi indicado pelo PT, outros partidos querem forçar sua saída para ocupar espaço.

- Eu e vários deputados do PT defendemos a permanência de Zuanazzi na presidência da agência - disse Cândido Vaccarezza (PT-SP).

Sem quórum mínimo, a Anac continua sem poder para regular o setor e os desafios continuam enormes. As medidas para revitalizar o Tom Jobim, ( Galeão), outra promessa do governo, somente devem ser anunciadas em dezembro. O governo cedeu às queixas da Infraero, que não quer perder receitas, e não vai mais reduzir tarifas no aeroporto para atrair mais passageiros.

Ao contrário, vai elevar as taxas dos aeroportos de São Paulo para desestimular as companhias a insistirem em manter suas operações no estado. O único incentivo será nas taxas de navegação aérea (pagas à Aeronáutica), a serem grátis para as empresas que quiserem transferir vôos internacionais de Guarulhos para o Galeão.