Título: Cristina é eleita presidente
Autor: Figueiredo, Janaína
Fonte: O Globo, 29/10/2007, O Mundo, p. 24
Boca-de-urna dá vitória folgada à primeira-dama em meio a denúncias de irregularidades.
Na sexta eleição presidencial consecutiva desde a redemocratização do país, em 1983, os argentinos elegeram pela primeira vez uma mulher presidente. Em meio a denúncias de irregularidades apresentadas por partidos opositores, pesquisa de boca-de-urna divulgada à noite pelo "Canal 13" de TV, um dos mais importantes do país, indicou que a senadora e primeira-dama, Cristina Fernández de Kirchner, venceu no primeiro turno, com 46,3% dos votos. Apesar do esforço realizado nas últimas semanas, a candidata da Coalizão Cívica, Elisa Carrió, não conseguiu impedir o esmagador triunfo da candidata da Casa Rosada e da Frente para a Vitória, sublegenda do peronismo criada e liderada pelo marido dela, Néstor Kirchner. Cristina não será a primeira mulher a presidir a Argentina: Isabelita Perón, vice de seu marido, Juan Domingo Perón, governou o país de 1974 a 1976 - após a morte dele.
Segundo a sondagem, Carrió está em segundo lugar, com 23,7% dos votos. Já o ex-ministro da Economia, Roberto Lavagna, candidato de Uma Nação Avançada (UNA), ficou em terceiro, com apenas 13,1%. Cristina teria conseguido derrotar seus opositores com o voto do interior do país, sobretudo da província de Buenos Aires.
- Vencemos amplamente, talvez com a maior diferença entre a primeira e a segunda força, desde o retorno da democracia. Mas isto, longe de nos colocar em posição de privilégio, nos coloca no lugar de maior responsabilidade pela confiança que recebemos de todos os argentinos - disse, emocionada, Cristina, num discurso aos seus partidários no QG da campanha após a divulgação da boca-de-urna.
Ciente das fissuras deixadas pela campanha, ela fez um apelo aos opositores e a toda a sociedade "para aprofundar as mudanças" no país.
- É necessário reconstruir o tecido social e institucional dos argentinos. Quero convocar toda a sociedade: um país não é construído apenas por um bom governo, também é construído por uma boa sociedade.
Nas grandes cidades, inclusive na capital, ela teria perdido a eleição. A Coalizão Cívica, sua principal rival, preferiu esperar os resultados oficiais. A provável eleição de Cristina consolida o poder de Néstor Kirchner, que assumiu a Presidência em maio de 2003 com 22% dos votos. Se a tendência informada pelo canal de TV for confirmada pela apuração oficial, o casal K terá duplicado seus votos numa eleição presidencial, após quatro anos e meio de gestão. Kirchner será, também, o presidente com mais alta imagem em fim de mandato, desde 1983. Outro fator importante: Cristina governará, de acordo com informações extra-oficiais, com maioria no Congresso. Num clima de forte expectativa, o presidente e a primeira-dama votaram em Santa Cruz e chegaram à capital no início da tarde. Depois de passarem a tarde com a família, o casal foi para o Hotel Intercontinental, onde se reuniu o comando de campanha, com a participação de convidados internacionais, como a líder socialista francesa Ségolène Royal. Na visão de analistas locais, o presidente terá um papel central no futuro governo do país.
- Kirchner vai compartilhar o poder com Cristina - disse ao GLOBO o analista Carlos Fara, diretor da empresa de consultoria Fara e Associados.
A eleição foi uma das mais caóticas desde o retorno da democracia. A falta de mesários nas províncias e, sobretudo na capital, provocou demoras de até três horas para votar. As complicações levaram o Conselho Nacional Eleitoral a ampliar em uma hora a votação. As acusações de irregularidades começaram cedo e partiram dos principais adversários de Cristina. Carrió, Lavagna, o governador Alberto Rodríguez Saá e o ex-ministro da Economia Ricardo López Murphy denunciaram a falta de cédulas dos partidos opositores em várias mesas de votação.
- Foi uma jornada eleitoral vergonhosa - disse López Murphy. - A eleição não gerou o consenso sobre o resultado e sua legitimidade, depois de uma campanha com excesso de poder e utilização dos recursos públicos por parte do casal presidencial.
O secretário de Meios de Comunicação do governo, Enrique Albistur, disse que "a oposição está furiosa pela derrota".
Além de elegerem o presidente, os argentinos votaram para renovar oito governos provinciais. Em Santa Cruz, terra natal de Kirchner, a na província de Buenos Aires, dois aliados do presidente teriam sido eleitos.
Se no interior e na somatória do país Cristina foi a grande vencedora da eleição, na capital a primeira-dama teria sido derrotada por Carrió, por 35% contra 29% dos votos, informaram canais de TV locais. A candidata da Coalizão Cívica também teria feito uma boa eleição em grandes cidades como Rosário e Córdoba.
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