Título: Leites adulterados começam a ser recolhidos
Autor: Ribeiro, Fabiana; Casemiro, Luciana
Fonte: O Globo, 27/10/2007, Economia, p. 39

Segundo entidade que reúne pecuaristas, outros fabricantes retiraram seus produtos do mercado, temendo fiscalização.

SÃO PAULO, RIO, BRASÍLIA e BELO HORIZONTE. Os lotes de leite longa vida das marcas Calu, Parmalat e Centenário condenados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), depois do escândalo da adição de soda cáustica e água oxigenada em duas cooperativas de Minas Gerais, já começaram a ser retirados das prateleiras dos supermercados em vários estados do país, como Rio, São Paulo e Minas Gerais. A decisão de recolher os produtos é resultado da Operação Ouro Branco, da Polícia Federal (PF), que investiga a adulteração do leite produzido em Uberaba, no Triângulo Mineiro, pelas cooperativas Casmil e Coopervale.

Além dos lotes condenados pela Anvisa, o presidente da Comissão Nacional de Pecuária de Leite da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Rodrigo Alvim, disse ontem ao GLOBO ter sido informado por contatos da entidade que algumas empresas do setor lácteo pediram para retirar seus produtos de supermercados de São Paulo. Ele acredita que, provavelmente, essas firmas, sabedoras de irregularidades em seus produtos ou com seus fornecedores, se anteciparam à intensificação da fiscalização.

Alvim não quis informar os nomes das empresas. Ele acredita, porém, que a produção de leite desta semana deve ser uma das mais seguras já postas à venda no mercado:

¿ Não deve ter nenhum louco seguindo com adulterações.

Encalhe nas prateleiras e cancelamento de compras

Alvim disse que a entidade sempre solicitou a intensificação da fiscalização, mas temendo apenas o golpe da dissolução do leite em água ou soro. Ele lembra que o próprio Ministério da Agricultura admite que a fiscalização é falha.

¿ Para nós esta operação está sendo importante porque, com todo este choque, a PF está fazendo o que o Ministério da Agricultura não fez.

Assustados com a possibilidade de beber leite contaminado, os consumidores paulistanos ensaiam um boicote à Parmalat, a mais conhecida das empresas com lotes contendo substâncias impróprias ao consumo.

¿ Eu ia comprar o Parmalat, como sempre fiz. Mas uma senhora me viu pegando a caixa e alertou sobre o problema, orientando-me a comprar outra marca. Eu preferi não arriscar e troquei, porque se todo mundo parar de comprar, eles vão ter de se preocupar mais com a qualidade ¿ disse o assistente de marketing André Guarnieri, de 20 anos.

Também fazendo compras num supermercado da capital paulista, a consumidora Renata Junqueira fazia coro:

¿ Gosto da marca, comprava umas 15 caixas por mês, mas simplesmente não vou comprar mais. Nem conheço os outros leites, mas a saúde da minha família é tudo.

A atitude dos clientes já se reflete nas vendas dos leites da Parmalat, que estão encalhando nas prateleiras. No Futurama, que vendia cerca de 80 caixas do leite da marca por dia, ontem só foram comercializadas dez. Nos estabelecimentos menores, compras estão sendo canceladas.

¿ Vendíamos dez caixas de Parmalat por semana, nesta não vendemos uma. Os compradores não confiam mais na marca ¿ diz o gerente da Padaria Angélica, Jaime Prachedes.

A Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo está enviando comunicado aos representantes municipais de saúde para realizarem a interdição cautelar dos lotes proibidos pela Anvisa. A orientação aos consumidores que já adquiriram os produtos é não consumi-los e fazer a troca ou solicitar a devolução do valor pago.

No Rio, os próprios supermercados recolheram litros de leite Parmalat. O Princesa, por exemplo, recebeu aviso da Parmalat que pedia a retirada dos lotes. O Prezunic, por sua vez, não recebeu notificação, mas se adiantou e tirou das prateleiras as caixas de leite integral da marca.

¿ Nossos consumidores podem trocar, se quiserem, o leite Parmalat por outro produto ¿ informou Genival de Souza, diretor do Prezunic.

O Grupo Pão de Açúcar garante que não tem em suas lojas os lotes do leite Parmalat determinados pela Anvisa.

Apesar de a Parmalat ter divulgado nota, ontem, garantindo aos consumidores que já retirou todos os lotes contaminados do mercado, a Vigilância Sanitária municipal do Rio encontrou, após denúncia, 35 caixas de uma de suas marcas à venda no supermercado Cash Top, em Paciência, na Zona Oeste. Na esfera estadual, o governo do Rio organizou uma força-tarefa que reúne as secretarias de Agricultura, Pecuária, Pesca e Abastecimento e de Saúde (via Vigilância Sanitária Estadual) e o Ministério Público Estadual para intensificar a fiscalização.

Para Abras, ¿não é possível generalizar o problema¿

Em Uberaba (MG), somente em um supermercado, 26 mil litros de leite já foram retirados e são mantidos em um depósito, após a operação da PF.

A Associação Brasileira de Supermercados (Abras) informou, em nota, que acompanha a investigação para garantir que os produtos adulterados não sejam comercializados nas redes. A entidade orientou que suas associadas recolham os lotes, de acordo com a recomendação da Anvisa. A Abras também diz que a adulteração ocorreu em duas cooperativas de Minas e em três marcas, por isso, ¿não é possível generalizar o problema para toda a indústria do leite¿.

(*) do Extra, colaborou Itamar Mayrink, da CBN