Título: À frente de um país dividido
Autor: Figueiredo, Janaína
Fonte: O Globo, 30/10/2007, O Mundo, p. 28
Eleita pelo interior, rejeitada por grandes cidades, Cristina Kirchner tem o desafio de unir a Argentina.
Cristina foi derrotada nas principais cidades, com destaque para a capital, onde a líder da Coalizão Cívica, Elisa Carrió, venceu com 38%, contra 24% da primeira-dama - que também perdeu em Rosário, Córdoba, Bahia Blanca e Mar del Plata. Para analistas o resultado mostra que, em geral, a classe média urbana não se sente representada pelo casal K, entre outros motivos por seu perfil autoritário e muitas vezes pouco democrático. Outro dado que preocupou o governo foi a abstenção de 27%, mais alta desde 1928. Com 96,5% dos votos apurados, Cristina (que assume em 10 de dezembro) consolidou sua liderança com 44,9%. Carrió ficou em segundo com 23%, e o ex-ministro da Economia Roberto Lavagna, em terceiro, com 16,9%.
- Os votos das grandes cidades são um recado. Os eleitores que votaram na oposição não dependem do clientelismo político que este governo promove - disse o analista Sergio Berenztein, da consultoria Poliarquia. - Os eleitores da oposição não gostam da falta de transparência, do autoritarismo e da ausência de uma real divisão de poderes.
Maioria no Senado e na Câmara
O resultado na capital irritou alguns membros do governo, entre eles o chefe de Gabinete, Alberto Fernández.
- Eu pediria à cidade (de Buenos Aires) que seja parte do país e deixe de pensar e votar como uma ilha - disse Fernández, principal colaborador e assessor do casal K.
Sem o apoio dos grandes centros, a vitória de Cristina foi possível basicamente pelo esmagador triunfo do candidato da Casa Rosada na eleição para governador da província de Buenos Aires, Daniel Scioli, com mais de 50% dos votos. Na província mais importante do país vive um terço dos eleitores argentinos. Alguns distritos são cruciais, como La Matanza, que tem o mesmo número de eleitores que as províncias de La Rioja, San Luis, Terra do Fogo e Santa Cruz juntas. A presidente eleita também contou com forte respaldo na Patagônia, terra natal de Kirchner, e no norte do país, onde a taxa de pobreza supera 50%.
- O novo governo deverá ter cuidado com este desgaste nos setores médios, porque Cristina precisará adotar algumas medidas que poderiam acentuar este cenário negativo, como o reajuste das tarifas de serviços públicos, congeladas desde 2002 - explicou Berenztein.
Cristina governará com amplos poderes. Além de ter quase todos os governadores do seu lado, ela terá maioria em ambas as câmaras, privilégio que o marido não teve. Com a eleição, o governo terá 140 deputados e o controle de 66% do Senado. Com um Congresso sob controle, espera-se que o futuro governo não abuse dos decretos de urgência, como fez Kirchner.
Na tentativa de melhorar sua imagem, Cristina convocou a todos, até mesmo aos que não lhe deram voto, a participarem do novo governo. Domingo à noite, além de comemorar a vitória, a futura presidente tentou transmitir uma imagem de conciliação, ciente de que o perfil autoritário do governo do marido provocou uma fuga de votos para a oposição e a enfraqueceu nas grandes cidades.