Título: Manobra atrasa votação de relatório na CPI do Apagão
Autor: Camarotti, Gerson; Carvalho, Jailton de
Fonte: O Globo, 31/10/2007, O País, p. 3

Três senadores governistas alegaram ter perdido vôo.

BRASÍLIA. Uma manobra do governo impediu ontem que a CPI do Apagão no Senado votasse o relatório do senador Demóstenes Torres (DEM-GO), que sugere o indiciamento de pelo menos 23 pessoas, a maioria delas ligadas à Infraero. A desculpa apresentada pelos governistas para pedir o adiamento da sessão para hoje foi a de que pelo menos três de seus representantes não teriam conseguido chegar a Brasília, entre eles Valdir Raupp (PMDB-RO), Welligton Salgado (PMDB-MG) e Romero Jucá (PMDB-RR). Logo depois de confirmado o adiamento, Raupp foi visto circulando nos corredores do Senado; e Jucá, no Palácio do Planalto.

A tática do governo era apenas ganhar mais um dia de prazo para concluir um voto em separado que deverá ser apresentado hoje pelo senador João Pedro (PT-AM). O senador Demóstenes Torres disse que foi informado de que o governo pretende retirar da lista de indiciados pelo menos quatro nomes do que classifica de "máfia de Petrolina". Entre eles estaria o deputado Carlos Wilson (PT-PE), ex-presidente da Infraero.

Outro suspeito que poderá ser poupado é Eurico Loyo, acusado por uma empresária de ser o "homem da mala" de Carlos Wilson. Demitido por corrupção de uma das diretorias da Infraero por determinação da Controladoria Geral da União (CGU), José Wellington também poderá ficar de fora da lista de indiciados.

A queda-de-braço entre governo e oposição hoje deverá ser dura, especialmente se o líder do PDT, senador Jefferson Peres (AM), cumprir a promessa de designar Osmar Dias (PDT-PR) para a vaga do partido. Isso garantiria à oposição seis votos, um a menos do que os do bloco governista. A expectativa é de que o vice-presidente da CPI e líder do PSB, senador Renato Casagrande (ES), siga o voto do relator Demóstenes Torres.

O relatório da CPI acusa a Infraero de desviar mais de meio bilhão de reais, sendo R$470 milhões no superfaturamento de construções e reformas de oito aeroportos, entre os quais estão o Santos Dumont, Congonhas, Guarulhos e Brasília. O documento pede o rastreamento de contas de 18 empreiteiras ou consórcios responsáveis pelas obras e indiciamento de 23 pessoas. Também atribui à Anac parte dos problemas no setor e pede o indiciamento da ex-diretora da agência Denise Abreu.