Título: Cenipa: pilotos omitem panes nos aviões
Autor: Camarotti, Gerson; Carvalho, Jailton de
Fonte: O Globo, 31/10/2007, O País, p. 3
Órgão da Aeronáutica diz que comandantes agem assim para evitar expor as empresas.
BRASÍLIA. Comunicado divulgado pelo Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) afirma que comandantes de vôos têm omitido panes nas aeronaves para não expor as companhias aéreas para as quais trabalham. O documento diz que o problema tem ocorrido "constantemente" e relata pelo menos dois casos no Aeroporto de Congonhas.
Em ambos, os comandantes não acionaram a situação de emergência por meio de comunicação à torre de controle, e apenas solicitaram "QAP" (comando para permanecer na freqüência) aos serviços contra incêndio. O procedimento evitou a entrada na pista dos carros de bombeiros, o que daria divulgação aos episódios. No primeiro caso, um avião ATR-42, com 29 pessoas a bordo, havia sofrido uma pane no motor direito, com o aquecimento da turbina e o conseqüente risco de incêndio.
"Fatos como esse colocam em risco a vida de pessoas considerando que, no caso de uma ocorrência mais grave durante o pouso, o tempo de reação dos bombeiros será maior, diminuindo a possibilidade de resgate de passageiros e tripulantes com vida", diz um trecho do comunicado.
No relatório, Cenipa condena atitude dos comandantes
O documento é enfático ao condenar a atitude: "Entende-se que é necessário conscientizar os pilotos sobre a gravidade da situação ou mudar a legislação em vigor para não corrermos o risco de perdemos vidas humanas em virtude da ação de comandantes que não desejem expor a empresa aérea em uma situação de emergência".
E reafirma o procedimento correto: "Informamos que a SCI (Serviço de Contra Incêndio) fica de "QAP" 24 horas por dia e cabe ao Cmt (comandante) informar sua "condição de urgência" ou "condição de socorro", através da nomenclatura "PAM, PAM, PAM" ou "MAYDAY, MAYDAY, MAYDAY" respectivamente".
O Cenipa emitiu recomendação às empresas aéreas para que elas não realizem pousos nem decolagens com o reverso (equipamento que inverte a rotação da turbina, auxiliando a frenagem) travado em aeroportos operando em "condições especiais".
A Aeronáutica não informou que aeroportos podem ser incluídos nessas condições, mas comandantes ouvidos pelo GLOBO disseram que elas se referem àqueles que possuem pistas curtas - como Congonhas, Santos Dumont e Ilhéus - e aos com pista com baixa aderência - o que pode ser agravado em períodos de chuva.
A recomendação foi feita por causa das investigações do acidente da TAM, que deixou 199 mortos. O Airbus A-320, que tinha um reverso pinado, não conseguiu frear na pista de Congonhas e chocou-se com o prédio da TAM Express. Segundo a Aeronáutica, a recomendação não quer dizer que a comissão que investiga o acidente considere o defeito como uma de suas causas. O caso segue em investigação.
Em Congonhas, uma decisão da Justiça já proíbe pousos com reverso pinado. Algumas companhias também já adotaram a medida - antes e depois do acidente da TAM.
- Há empresas que nunca permitiram, outras não. Mas hoje há uma posição muito mais restrita (a pousos com reverso pinado) - diz a presidente do Sindicato Nacional dos Aeronautas, Graziella Baggio.