Título: Meirelles: sem a CPMF e o corte de gastos, taxas de juros podem subir
Autor: Duarte, Patrícia
Fonte: O Globo, 31/10/2007, O País, p. 4
NEGOCIAÇÕES NO CONGRESSO: "Importante é que superávit primário seja mantido".
Presidente do BC diz no Congresso ser inevitável que governo reduza despesas.
BRASÍLIA. Caso o governo não consiga aprovar no Senado a prorrogação da cobrança da CPMF, as taxas de juros do país podem subir a longo prazo, segundo avaliação feita ontem pelo presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, principal comandante da política monetária do país. Isso ocorrerá, disse, se o governo não fizer os cortes de despesas para compensar a perda de receita, caso o tributo não seja prorrogado. Para Meirelles, portanto, será inevitável que o governo corte seus gastos.
- Não podemos nos iludir é que nós eliminamos receitas e continuamos a ter as mesmas despesas. É uma conta matemática simples - afirmou ontem o presidente do BC, em audiência no Congresso.
Meirelles disse que o importante para a condução da política monetária é que o superávit primário - a economia que o governo faz para o pagamento de juros - seja mantida para garantir que a relação da dívida pública com o Produto Interno Bruto (PIB) continue a cair. Hoje, a meta do governo é de superávit de 3,88% do PIB.
- Se (a não aprovação da CPMF) levar a uma diminuição do superávit primário, isso vai significar que a dívida pública vai continuar a crescer, e vai aumentar os juros a longo prazo. Não é um impacto direto, depende de um conjunto de coisas - afirmou Meirelles, na audiência, sem citar a possibilidade de se elevar outros impostos para compensar possíveis perdas.
Mais tarde, ao falar com jornalistas, Meirelles afirmou que essa discussão é "política e da sociedade", e voltou a dizer que, para a condução da política monetária, é fundamental manter o superávit primário, sem desequilibrar as contas públicas.
- O importante é que no correr do tempo o superávit primário seja mantido para que a dívida pública continue a cair, que isso ajude a continuar a queda dos juros reais, e que haja mais recursos disponíveis para que o setor privado continue a investir.
Sem CPMF, governo terá R$40 bilhões a menos
Sem a CPMF, poderão deixar de entrar no caixa do Tesouro R$40 bilhões em 2008. O governo teme que isso possa piorar o cenário macroeconômico, que nos últimos anos ajudou na redução da taxa básica de juros, hoje em 11,25% ao ano. Nos últimos dois anos, ela foi cortada em 8,5 pontos percentuais, ciclo interrompido neste mês, quando o Comitê de Política Monetária (Copom) manteve a Selic.