Título: Sindicalistas no governo fazem lobby por centrais
Autor: Doca, Geralda; Lima, Maria; Damé, Luiza
Fonte: O Globo, 31/10/2007, O País, p. 8

Ministros e servidores pressionam Senado para derrubar proposta que põe fim à contribuição sindical obrigatória.

BRASÍLIA. Para pressionar o Congresso pela manutenção do imposto sindical obrigatório, as centrais sindicais estão usando o poderio que têm no governo Lula. Além dos ministros sindicalistas, elas têm como principal porta-voz na operação de derrubada do fim da obrigatoriedade da contribuição sindical, que será votada no Senado, o ex-fundador da Força Sindical e ex-deputado Luiz Antônio de Medeiros, hoje secretário de Relações do Trabalho do Ministério do Trabalho. Ele foi escalado pelo ministro da pasta, Carlos Lupi (PDT), para liderar o lobby e negociar com líderes partidários no Senado a manutenção do imposto sindical obrigatório.

O relator do projeto na Comissão de Assuntos Sociais do Senado, Paulo Paim (PT-RS), admite que a proposta que tem mais consenso hoje é a que resgata o texto do Executivo - que legitima as centrais e prevê o repasse a elas de 10% das contribuições obrigatórias. O fim ou não do recolhimento compulsório seria adiado por um ano.

- O governo está se posicionando para manter o acordo feito com as centrais. A proposta que tem mais consenso é a que mantém esse acordo, de reconhecimento das centrais e repasse para elas de 10% da contribuição obrigatória, e daqui a um ano se busque uma alternativa - disse Paim.

Além do empenho de Medeiros e dos ministros Lupi e Luiz Marinho (Previdência), as centrais sindicais contam, em tese, com o apoio de dezenas de ex-dirigentes sindicais que ocupam cargos importantes no governo, em estatais e em fundos de pensão.

Uma tropa de choque de líderes das cinco centrais sindicais está, desde ontem, visitando gabinete por gabinete, no Senado, para tentar derrubar a emenda do deputado Augusto Carvalho (PPS-DF), que acaba com a contribuição obrigatória. A pressão é para derrubar também o artigo que submete as entidades ao controle do TCU.

"A pressão dos sindicalistas do governo é pesada"

Medeiros procurou minimizar a atuação do governo a favor das centrais sindicais. Disse ser a favor do fim do imposto e que, sem ele, os sindicatos podem ir à falência:

- É preciso criar uma forma de sustentação, que pode ser uma contribuição negocial - disse Medeiros.

Lupi é do PDT, mesmo partido do atual presidente da Força Sindical, deputado Paulo Pereira da Silva, o Paulinho. Luiz Marinho, que deixou a CUT para assumir o Ministério do Trabalho, hoje nas mãos de Lupi, trabalha junto com o pedetista para defender os interesses das entidades no Congresso.

- A pressão dos sindicalistas do governo é pesada. O ministro do Trabalho é um funcionário do Lula, ardoroso defensor do fim da contribuição no passado, que hoje também mudou de lado. Veio ao Senado ostensivamente pedir a manutenção da contribuição. E não está falando por conta própria, mas pelo governo, que patrocina a derrubada da emenda - diz Augusto Carvalho.

Ontem, Paulo Pereira da Silva disse ter acertado com o presidente da Comissão de Assuntos Econômicos, Aloizio Mercadante (PT-SP), que nomeasse o senador Francisco Dornelles (PP-RJ) para ser o relator na comissão. Imediatamente Dornelles passou a costurar, com a oposição, uma proposta de acabar com a obrigatoriedade progressivamente, em três anos.

Liderados por Paulinho, cerca de 15 representantes de centrais se reuniram ontem com o senador Renato Casagrande (PSB-ES). Até mesmo representantes de centrais que ainda nem foram criadas, mas já estão de olho nos 10% da contribuição, estavam lá.

Augusto Carvalho lembra que apenas cerca de 14% dos trabalhadores são sindicalizados, e os outros 80%, mesmo assim, têm que dar um dia de trabalho para financiar sindicatos que nem sabem que existem. Mas considera, diferentemente dos sindicalistas e governistas, que há clima no Senado para manter, e aprimorar, a idéia do fim do imposto sindical, já que cresce na sociedade um clamor contra impostos, principalmente agora com a CPMF.

- Esse é um imposto covarde e ilegítimo, que usurpa o salário de um dia do trabalhador que nem sabe o que é sindicato. Isso tudo para financiar uma orgia política profissional e sustentar pelegos que se perpetuam no poder há décadas - disse Augusto.

A força política do sindicalismo no governo do presidente Lula é grande, embora seja difícil mensurar o total de ex-dirigentes sindicais na administração pública. No primeiro mandato eram seis ministros ex-sindicalistas, agora são três - Paulo Bernardo (Planejamento), Luiz Marinho (Previdência) e Luiz Dulci (secretaria-geral da Presidência).

Quase metade dos cargos nas mãos de sindicalizados

A presença no segundo escalão foi medida pela pesquisadora da Fundação Getulio Vargas Maria Celina D"Araújo, que coordenou um levantamento do perfil dos ocupantes de DAS 5 e 6 e NES do primeiro governo Lula. O estudo - chamado "Governo Lula: contornos sociais e políticos da elite do poder" - identificou que, de um universo de 302 pessoas, 45% eram sindicalizadas, enquanto a média nacional é de 14,5%, segundo o IBGE.