Título: Galpão com queijo mofado não tinha registro
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Fonte: O Globo, 31/10/2007, Economia, p. 28

Depósito clandestino em Uberaba tinha toneladas de produto vencido e falsificava selo do Ministério da Agricultura.

BRASÍLIA, BELO HORIZONTE e RIO. O galpão em Uberaba (MG) que abrigava 16 toneladas de queijo mussarela vencido comprado em laticínios de Goiás e que seria revendido em São Paulo não tem registro na Receita Federal nem alvará da Vigilância Sanitária. A câmara fria foi lacrada e o local, interditado. Segundo a Vigilância Sanitária, serão enviadas amostras para a Fundação Ezequiel Dias (Funed), em Belo Horizonte, para análise. O dono da mercadoria, já identificado pela polícia, está foragido. Seu advogado, Antônio Alberto da Silva, foi à PF.

Ontem a PF e a Vigilância Sanitária divulgaram a relação das marcas dos seis laticínios de Goiás onde o queijo foi comprado. São elas: Mil Quilates Laticínio MaroMilk, de Jataí; Lunati Laticínios Ltda., de Palmeiras; Lev Laticínios Leve, de Cezania; Milklac Laticínio Paramilk; Milknata Laticínio Mac Nat; e Lactorei Naturalac, de Goiânia.

Fraude foi descoberta depois da operação Ouro Branco

Segundo o delegado da PF, Ricardo Ruiz, o queijo era comprado com a validade vencida ou próxima do vencimento. No depósito, passava por uma limpeza e recebia nova embalagem, de uma empresa mineira, cujo nome não foi revelado, com o prazo de validade prorrogado e selo do Serviço de Inspeção Federal (SIF), do Ministério da Agricultura. As empresas serão investigadas pela PF e a Vigilância Sanitária.

A fraude foi descoberta uma semana depois de a Polícia Federal deflagrar a Operação Ouro Branco, que descobriu que duas cooperativas de Minas adulteravam leite com soda cáustica e água oxigenada.

Em depoimento, uma das três pessoas que estavam no local da apreensão confirmou que os caminhões saíam do galpão à noite, levando o queijo para fábricas clandestinas. O interrogatório dos suspeitos terminou no início da madrugada.

A PF apurou que eram comercializadas cerca de 20 toneladas de queijo por semana. O produto era vendido principalmente em São Paulo, nas cidades de Ribeirão Preto, Presidente Prudente, Bauru e na capital paulista. O dono do depósito pode responder por uso indevido de símbolo da administração pública. A pena prevista para esse crime é de dois a seis anos de prisão.

Indústria de laticínios pede ao governo defesa do leite

O Ministério Público Federal anunciou ontem a instauração de inquérito para esclarecer o esquema de adulteração do leite pelas cooperativas mineiras Casmil e Coopervale. Além de apurar as falhas no sistema de fiscalização, o inquérito pretende verificar se há fraudes em outros laticínios da região.

Preocupada com o impacto da fraude no leite, a indústria de laticínios começou ontem um lobby junto ao governo para preservar a imagem do setor. O presidente da Parmalat, Marcus Elias, esteve com o presidente da República em exercício, Arlindo Chinaglia (PT-SP), os ministros Walfrido dos Mares Guia (Relações Institucionais) e Reinhold Stephanes (Agricultura), e o diretor-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Dirceu Raposo de Mello. O segmento pede ao governo uma defesa mais firme da qualidade do leite.

Outros dois dirigentes de indústrias não divulgadas também estiveram com Stephanes pedindo uma ação para evitar pânico na sociedade. O governo reconhece que o problema pode afetar a imagem e o faturamento de cerca de um milhão de produtores de leite do país.

- Estão sendo criados mecanismos para que se evite no futuro a ocorrência desses desvios. É grande a preocupação que o ministério tem com mais de um milhão de produtores de leite que vão acabar pagando por causa dessa meia dúzia de vigaristas que entraram no mercado - afirmou Stephanes.

Ele explicou que a indústria pede que se mostre à população como é feito o controle de qualidade do leite:

- Nós realizamos três milhões de testes por ano, ou seja, são dez mil testes por dia. Dentro da própria indústria também são realizados testes.

Depois da reunião, Chinaglia orientou Stephanes e Raposo a adotarem todos os procedimentos necessários para garantir a qualidade do leite fornecido à população.

A preocupação da Parmalat com a imagem chegou ao varejo da capital federal. Ontem, quem se aproximava da gôndola dos leites longa vida numa loja da rede Pão de Açúcar, na Asa Sul, era acompanhado por uma funcionária de jaleco branco com crachá da empresa.

- Nossos produtos são muito bons - avisava ela.

Um consumidor lembrou a apreensão, mas a funcionária respondeu que o problema era num lote antigo.

Ontem, os ministérios da Agricultura e Justiça afirmaram acompanhar o caso da adulteração do leite desde julho. O produto não foi apreendido de imediato pois não fazia mal à saúde, e eram necessárias provas para deflagrar a Operação Ouro Branco.

- Para prender alguém é preciso de tempo e trabalho coordenado - disse Stephanes.

No Rio, força-tarefa ainda não recolheu amostras

No Ministério Publico do Estado do Rio, foi realizada ontem uma reunião da "Força-Tarefa do Leite", para discutir ações preventivas e de inteligência para garantir a qualidade do produto consumido no estado. O grupo, que reúne representantes das secretarias estaduais de Agricultura e Saúde, além do MP, prevê ação conjunta dessas instâncias, no recolhimento de amostras e, no caso de irregularidades, na instauração de ação criminal. Serão analisadas todas as marcas de leite que chegam ao estado, ou seja, 70% do consumo local. Os outros 30%, de produção fluminense, já passam por fiscalização.

A Vigilância Sanitária estadual esclareceu que, no momento, não está fazendo qualquer operação especial de fiscalização, mas atende a denúncias.