Título: Sindicalistas levam vida de rico
Autor: Galhardo, Ricardo
Fonte: O Globo, 04/11/2007, O País, p. 3

IMPOSTO POLÊMICO

Contribuição sindical obrigatória ajuda a patrocinar mordomias para dirigentes.

Criado na década de 40 para alavancar o então imberbe movimento sindical brasileiro, o imposto sindical obrigatório hoje ajuda a manter mordomias de dirigentes sindicais. Enquanto trabalhadores mal remunerados, como peões da construção civil e padeiros, são obrigados a pagar um dia de salário por ano aos sindicatos, dirigentes das entidades empregam parentes, andam em carros importados, viajam em helicópteros e aviões particulares e moram em casas suntuosas.

No dia 19, a Câmara aprovou uma emenda ao projeto de lei 1990/07, que regulamenta as centrais sindicais, acabando com a obrigatoriedade do imposto. A decisão provocou rebuliço no meio sindical, ameaçado de perder R$490 milhões ao ano e, com o apoio do governo, as centrais pressionam o Senado para derrubar a emenda.

Enquanto isso, alguns dirigentes têm padrão de vida inimaginável para os trabalhadores que representam.

Entronizado há 18 anos no Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil Pesada, que representa peões de obra, Antonio Bekeredjian, o Toninho, leva uma vida de rico.

Segundo funcionários do estacionamento em frente ao sindicato, Toninho costuma chegar ao trabalho a bordo de um Mercedes-Benz. Em seu nome estão registrados telefones em diversos imóveis luxuosos.

Um deles fica no Condomínio Velden Village, em Campos do Jordão, destino dos milionários paulistanos nas temporadas de inverno. Trata-se de um apartamento de 190 metros quadrados, em estilo alemão, com lareira e quatro dormitórios, localizado numa área com quadra de tênis, churrasqueira, playground e avaliado em R$500 mil. Segundo funcionários do condomínio, Toninho raramente aparece no local, mas a taxa de condomínio (R$1.091) mensal está em dia.

Outro telefone de Toninho fica na Omega Factoring, empresa localizada em Santos. Uma funcionária disse, em conversa gravada, que Toninho é um dos sócios. Um terceiro telefone em nome do sindicalista fica em um apartamento na badalada Avenida Presidente Wilson, de frente para a Praia do Gonzaga, a mais nobre de Santos.

"Quero ver alguém provar que é meu"

O sindicalista, que mora no Campo Belo, bairro da classe média alta paulistana, nega tudo:

- Quero ver alguém provar que isso aí está no meu nome. É tudo dos meus filhos. Os telefones são presentes que dei a eles. Tenho um carro simples, um Golf 2002 - justificou.

Outro exemplo é Almir Macedo Pereira, presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Transporte de Carga Própria de São Paulo, que representa parte dos caminhoneiros. Almir está construindo uma casa na Serra da Cantareira, Zona Norte de São Paulo, reduto de endinheirados paulistanos em busca de sossego e natureza.

Localizada numa encosta da serra, em meio à mata nativa, a casa de três pavimentos e piscina vale pelo menos R$300 mil, segundo imobiliárias da região. Na fachada da obra, uma placa indica que o material foi fornecido pela fábrica de ferro K&FER, empresa que emprega boa parte dos trabalhadores representados pelo sindicato.

- Trabalho há 30 anos e juntei dinheiro para construir a casa, que nem está pronta. Qual o problema em ter material da K&FER? Comprei e paguei tudo. Tenho as notas - disse Almir.

Em 2003, ele, o tesoureiro Heleno de Lima e o empresário Henry Maksoud foram denunciados por fraude pelo Ministério Público Federal. Eles convenceram trabalhadores demitidos do Hotel Maksoud Plaza a abrirem mão do pagamento integral das indenizações no ato da homologação, prejudicando 51 trabalhadores.

- Isso foi arquivado por falta de provas lá no tribunal do Lalau (o Tribunal Regional do Trabalho, cuja obra levou à prisão o juiz aposentado Nicolau dos Santos Neto) - defendeu-se Almir.

Além de mansões em lugares badalados, alguns dirigentes sindicais têm predileção por carrões blindados, de preferência Volkswagen Golf ou Toyota Corolla.

Presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil de São Paulo, que representa outra parte dos peões de obra, Antonio de Sousa Ramalho só anda a bordo de um Corolla blindado com motorista.

- Se não for em carro blindado, só saio de casa com pelo menos três seguranças. Vivo recebendo ameaças de morte, tanto de patrões como das divisões no sindicato - justificou Ramalho.

O Ômega azul metálico, também blindado, de uso exclusivo do presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Transporte Rodoviário de Cargas Secas e Molhadas de São Paulo e Itapecerica da Serra, José Carlos de Sena, deve causar inveja na estrada aos caminhoneiros representados pela entidade.

No Sindicato dos Padeiros, nepotismo

Ele tem bons motivos para usar carro blindado. Sena foi preso em 2003 acusado de participar do assassinato do presidente do Sindicato dos Motoristas de Guarulhos, Maurício Alves Cordeiro. Ex-vice presidente da Força Sindical, Sena foi solto por ordem judicial e retornou à vida sindical.

O Sindicato dos Aposentados e Pensionistas da Força Sindical também comprou um Corolla para uso exclusivo do presidente, João Inocentini, o João Feio. Uma de suas filhas e seu genro trabalham no sindicato.

O presidente do Sindicato dos Padeiros de São Paulo, Francisco Pereira de Sousa, compartilha o gosto por carros blindados e contratação de parentes. Ele roda a cidade em um Golf prateado, equipado com aparelho de DVD no banco traseiro e pilotado por um sobrinho, Eduardo. O vice-presidente do sindicato é Pedro Pereira de Sousa e o secretário-adjunto de Finanças, Geraldo Pereira de Sousa. Ambos são irmãos de Francisco. A lista de dirigentes do Sindicato dos Padeiros inclui ainda Marcela Pereira de Sousa, outra sobrinha de Francisco.

Sena, João Feio e Francisco Pereira de Sousa foram procurados na última quinta-feira em seus respectivos sindicatos, mas não responderam aos telefonemas. A assessoria de imprensa do Sindicato dos Aposentados confirmou as informações do GLOBO, mas informou que o único autorizado a responder é João Feio, que não foi localizado em seu telefone celular.