Título: Fuga de cérebros é um dos desafios: um terço do pessoal sairá até 2010
Autor: Tavares, Mônica
Fonte: O Globo, 04/11/2007, Economia, p. 34
EXPERIÊNCIA GLOBAL: Plano estratégico inclui ainda estruturação da agroenergia.
Com aposentadoria de funcionários, há perda de memória das pesquisas.
BRASÍLIA. Movida a desafios, a Embrapa tem para o futuro imediato duas tarefas hercúleas. A primeira é estruturar sua área de agroenergia - um dos segmentos mais promissores em pesquisa e tecnologia e que, devido à vocação brasileira, ganhou contornos de assunto de Estado. A segunda é, para dar conta dessa tarefa e do outro sem-número de trabalhos que desenvolve, renovar um terço de seu quadro de pessoal, que deixará a empresa - por aposentadoria - nos próximos três anos, levando consigo experiência acumulada. Os temas são centrais no plano estratégico que começa a ser elaborado.
Segundo o presidente da estatal, Silvio Crestana, a nova frente da agricultura é o potencial energético. Além da contribuição que a empresa já deu ao país nessa área - com o pioneirismo do álcool combustível e do biocombustível - estão sendo pesquisadas novas possibilidades de insumo. Em etanol há uma grande aposta no algodão, além da celulose.
Salários, de até R$20 mil, são considerados satisfatórios
Nos biocombustíveis, as novas linhas são a do pinhão manso e a das gramíneas, no semi-árido. Sem falar no aprimoramento da já popular mamona - a favorita do presidente Lula. Crestana lembra que, ao aprender a lidar com diferentes plantas, é acumulado patrimônio único, tanto no intercâmbio entre as pesquisas quanto na montagem de bancos de dados genéticos.
O conceito-chave é ter expertise em biomassa, fundamental frente à escassez de insumos não-renováveis.
- Uma das prioridades é montar, para valer, a unidade de agroenergia. É um problema mundial. E há grandes investimentos em ciência e tecnologia, bem maiores do que estamos fazendo - diz Crestana.
Atuar na liderança requer gente com experiência acumulada, mas a Embrapa verá, até 2010, 2,6 mil de seus 8.320 funcionários se aposentando. São os servidores que terão 55 anos ou mais e 30 anos de contribuição ao INSS. Seiscentos já saíram e tiveram as vagas preenchidas.
O que preocupa, segundo Crestana, é que, com esses funcionários, sai da instituição parte da memória das pesquisas, o que pode desfalcar algumas linhas de atuação.
- É memória, por isso (o processo de substituição) não pode ser feito de repente, tem que ser paulatinamente. Trabalhamos com conceito de equipe, não com conceito de indivíduo. Se eu mantiver massa crítica nas áreas de conhecimento em que a Embrapa já teve sucesso, tudo bem, posso trocar.
Para o presidente da Embrapa, remuneração não é um grande problema para a retenção de quadros. Os pesquisadores recebem entre R$4 mil e R$4,8 mil, com acréscimos decorrentes de titulação. Conta ainda o adicional por tempo de serviço. Ao fim da carreira, diz Crestana, os pesquisadores podem receber de R$15 mil a R$16 mil - chegando a R$20 mil nos casos de quem fica em ecossistemas remotos, como o amazônico.
Crestana reconhece que os salários estão aquém dos recebidos em outras carreiras de Estado, como fiscais da Receita e agentes da Polícia Federal. Ele considera, no entanto, que a Embrapa é um lugar atraente para se trabalhar. Crestana afirmou que tenta garantir no Congresso um orçamento maior. A proposta do governo para 2008 é de R$1,1 bilhão - o mesmo que executado este ano.