Título: Sons para toda hora
Autor: Albuquerque, Carlos
Fonte: O Globo, 04/11/2007, Saúde, p. 45
Dos esportes à medicina, a música ganha cada vez mais novos valores.
Amúsica não entra por um ouvido e sai pelo outro. Ritmos e melodias nos acompanham desde os primeiros tempos, nos mais diversos momentos da evolução humana. Estudos recentes mostram que essa relação, como era de se esperar, está cada vez mais forte. Eles comprovam que a música pode melhorar o desempenho no trabalho, nos esportes e até mesmo ser uma valiosa aliada em tratamentos médicos.
Há músicas para todas as funções, assim como há músicas para todos os gostos, como na letra de ¿Música para ouvir¿, de Arnaldo Antunes (¿Música para ouvir no trabalho/Música para jogar baralho/Música para querer morrer/Música para baixar o santo/Música para ouvir no dentista/Música para fazer chover/Música para ninar nenê/Música para fazer sexo¿). Difícil é ficar indiferente a elas.
¿ Acho que ninguém é totalmente indiferente à música ¿ diz o maestro André Cardoso, diretor da Escola de Música da UFRJ. ¿ A pessoa pode ser indiferente a um determinado tipo de música. Acredito que a importância da música na vida de cada um é determinada por uma série de fatores que fazem parte da história de vida das pessoas.
Para a musicoterapeuta Martha Negreiros, cada pessoa tem a sua própria trilha sonora.
¿ É uma assinatura musical única ¿ garante ela. ¿ Ela vem marcada desde os traços afetivos na vida ultrauterina, os sons do corpo da mãe e de todo o ambiente que cerca a criança. Depois, vamos guardando sons que marcam nossas vidas, que nos ligam a diversos momentos e que associamos com memórias e até mesmo cheiros.
Cérebro de músicos apresenta diferenças
No caso do professor de educação física Luiz Eloiz, a música é uma ferramenta motivadora no seu trabalho de treinador pessoal.
¿ Em termos gerais, uso a música para fazer com que os alunos se sintam mais motivados ¿ conta ele. ¿ Numa atividade coletiva, como o spinning, por exemplo, a música é uma coisa fundamental. Nesse caso, o ritmo tem que ser intenso como a prática do exercício. Mas se for em um trabalho individual, a música tem que ser escolhida de acordo com o perfil do aluno. Ela tem que ser mais direcionada, deve servir para que ele se sinta à vontade e motivado.
Alguns especialistas dizem que a música é percebida pela mesma região do cérebro que recebe os estímulos das emoções. Em recente entrevista ao GLOBO, o neurologista britânico Oliver Sacks declarou que a música ¿se apossou de muitas partes do cérebro¿. Segundo ele, que lançou recentemente o livro ¿Alucinações musicais¿, a música é tão primordial para a espécie humana quanto a lingugem. Para Sacks, entender a relação entre música e cérebro é crucial para a compreensão do homem.
A bióloga e neurologista Suzana Herculano Houzel garante que nós usamos as mesmas estruturas do cérebro ligadas à linguagem para receber a música.
¿ A região do cérebro que acionamos para apreciar acordes são os mesmos que usamos para cuidar da fala ¿ conta ela, que é autora de livros como ¿O cérebro em transformação¿ e ¿Sexo, drogas, rock¿n¿roll & chocolate ¿ O cérebro e os prazeres da vida cotidiana¿.
Musicoterapia ajuda na amamentação
Sacks explica que estudos com imagens do cérebro mostram que músicos têm determinadas regiões ampliadas, o que comprovaria que o órgão se modifica em resposta à música. Suzana concorda, lembrando que essa ligação entre música e linguagem tem outras respostas.
¿ Há estudos comprovando que os músicos têm mais facilidade para aprender línguas estrangeiras. Eu, por exemplo, que possuo formação musical, tenho facilidade de imitar sotaques e sons.
Na Maternidade Escola da UFRJ, Martha Negreiros desenvolve há nove anos um projeto que une musicoterapia e aleitamento materno. Ele mostra que a música pode ter um papel importante na amamentação, especialmente entre mães de bebês nascidos prematuramente.
¿ Não existe mãe sem leite. Isso é psicológico. Na verdade, toda mulher é insegura para amamentar ¿ conta a musicoterapeuta. ¿ Na Maternidade, trabalhamos com mães de bebês prematuros. São casos em que a ansiedade e o estresse interferem no processo de amamentação. Através das músicas, criamos uma atmosfera que cria um alívios para essas situações. Não existe uma regra. Às vezes cantamos juntas. Em outros casos, as mães trazem suas músicas favoritas para ouvir durante as sessões. O importante é a instalação da função materna. Ou seja, fazer a mulher se tornar uma mãe de fato. Para o bebê, é o que importa.
Martha, porém, não acredita na existência uma música certa para determinada situação.
¿ Não acredito em uma prescrição musical geral. New wave, por exemplo, que acalma algumas pessoas, me irrita ¿ confessa. ¿ Você escuta a música que precisa ouvir.
Ou a música que precisa sentir.
Há pouco tempo, um site chamado i-Doser prometeu reproduzir, através de músicas especialmente ¿compostas¿, em determinadas freqüências, as sensações obtidas pelo uso de diversas drogas. O maestro André Cardoso, porém, duvida da eficácia do suposto método do i-Doser.
¿ Não creio nisso. Uma música não pode, jamais, produzir os mesmos efeitos de um produto químico ¿ garante. ¿ Não há nenhuma comprovação científica. A música atua na sensibilidade, e é bastante subjetiva, mas não tem a capacidade de provocar as mesmas sensações de uma droga. Obviamente, a música serve para provocar diferentes sensações, mas deve estar associada ao ambiente e à pessoa que ouve.
Mas não há como esquecer da ¿Sinfonia fantástica¿, do compositor francês Hector Berlioz. Ela descreve as alucinações de um artista sob o efeito do ópio.
¿ É um trabalho que tem relação com ¿A sinfonia doméstica¿ do compositor alemão Richard Strauss, que procura retratar a vida familiar onde os diferentes momentos musicais descrevem as brigas e tensões domésticas. São duas obras descritivas, na linha do poema-sinfônico criado no século XIX.
Para o maestro, certo é que a música pode, sim, atuar no bem estar de uma pessoa.
¿ Aquele que gosta de música e procura mantê-la como item essencial em sua vida é, sem dúvida, uma pessoa mais feliz.
PS: Essa reportagem foi escrita ao som do disco ¿Happy people¿, do cantor americano de soul R.Kelly. No encarte, o disco é descrito pelo autor como um trabalho feito para ¿tocar a alma¿ do ouvinte e ¿aliviar¿ o seu espírito.