Título: Uribe cogita mudar Carta para se reeleger
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Fonte: O Globo, 05/11/2007, O Mundo, p. 24
Vitória de opositores em eleições regionais deu força à idéia de presidente da Colômbia.
WASHINGTON. O principal fundamento do chavismo - a prolongada, se possível eterna, permanência no poder - parece começar a se expandir além das fronteiras da Venezuela, contaminando um país vizinho: a Colômbia. O seu presidente, Álvaro Uribe, cogita seguir o exemplo do colega Hugo Chávez: mudar a Constituição mais uma vez, para poder se reeleger (pela segunda vez) em 2010.
O seu propósito vazou exatamente como tinha acontecido durante o seu primeiro governo. Depois de uma reunião privada com aliados, um deles revelou a intenção de Uribe que, em seguida passou meses em silêncio, apenas medindo os resultados desse balão de ensaio - até que em 2004 conseguiu alterar a Constituição. Até então ela não permitia a reeleição presidencial.
O processo se repete agora. Depois de um encontro fechado com aliados na última quarta-feira, a presidente da Câmara, Patricia Gutierrez, contou que Uribe estaria disposto a se candidatar porque, do jeito que vê a situação, uma vitória da oposição poderia ser uma catástrofe para o país.
Para Uribe, vitória da oposição seria "uma hecatombe"
A reunião aconteceu dez dias depois das eleições regionais, em que os opositores registraram grandes avanços - conquistando, inclusive, a prefeitura de Bogotá. Uribe chegou a dizer que a Colômbia poderia vir a sofrer "uma hecatombe", se a coligação partidária no poder viesse a perdê-lo em 2010.
Gustavo Petro, senador do Polo Democrático, onde se concentra a oposição mais dura ao governo Uribe, reagiu:
- Verdadeira hecatombe será Uribe conseguir uma nova reeleição - disparou.
José Gregório Hernandez, ex-membro da Corte Constitucional, tampouco gostou da novidade:
- Não é uma boa idéia para a nação alguém se perpetuar eternamente no poder - disse ele.
O processo, na verdade, começara dois dias antes do encontro do presidente Uribe com suas bases, pois na segunda-feira Luis Guillermo Giraldo, presidente do Partido de la U (Unidade), um dos quatro partidos do uribismo, já determinara o início da coleta de assinaturas para solicitar um referendo para a mudança constitucional em 2008.
Para isso são necessárias 1,4 milhão de assinaturas - o equivalente a 5% do censo eleitoral. Isso não será difícil obter, considerando que os partidos uribistas obtiveram 11 milhões de votos na eleição mais recente.
- Não se troca um general quando se está ganhando a guerra - disse Giraldo, justificando sua iniciativa.
O presidente Uribe ainda não fez qualquer declaração pública a respeito. Procurado pelo GLOBO, o seu porta-voz, Cesar Maurício Velasquez, reagiu de forma semelhante:
- O presidente não comenta o que se fala em discussões privadas - disse.
A posição do uribismo é clara: não há ninguém melhor que Álvaro Uribe para comandar a Colômbia. Pesquisas de opinião mostram que 52% dos colombianos em geral endossam isso, assim como 58% dos empresários. Investidores estrangeiros também se sentem dependentes de Uribe, uma vez que ainda não há no país instituições capazes de garantir a continuidade de suas políticas.
E a comparação com Hugo Chávez se torna cada dia mais frequente:
- Parece-me que não há muita distância entre dois personagens convencidos de que sua vontade e seu discernimento estão acima da instituição máxima que existe na democracia: a Constituição. Ambas mentes compartilham a convicção de sua existência como messias da nação - afirmou Eduardo Plata Yidios, analista político do jornal "El Tiempo", de Bogotá.