Título: Chávez inicia campanha pelo sim
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Fonte: O Globo, 05/11/2007, O Mundo, p. 24

Marcha defende aprovação de reforma constitucional. Oposição anuncia boicote a referendo.

CARACAS

Numa demonstração de força orquestrada em meio a protestos e manifestações de opositores, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, liderou ontem uma marcha com centenas de milhares de pessoas em Caracas a favor de seu controvertido projeto de reforma constitucional, aprovado sexta-feira pela Assembléia Nacional. Vestidos de vermelho, simpatizantes de Chávez tomaram conta das principais avenidas da capital defendendo o "sim" no referendo sobre a reforma, marcado para o dia 2 de dezembro.

Também ontem, partidos políticos e outros opositores da reforma constitucional anunciaram que iniciarão uma campanha para que a população se abstenha no referendo. Numa aparente resposta à iniciativa da oposição, Chávez encerrou a marcha pelo "sim" afirmando, em discurso para a multidão em Caracas, que "a principal luta na campanha é contra a abstenção", tradicionalmente alta no país.

- Vamos lutar contra a abstenção. Esse governo não é fraco. Não vamos permitir que filhinhos de papai nascidos em berços de ouro destruam nossas ruas - disse ele, aparentemente se referindo a protestos estudantis.

O evento promovido pelo governo aconteceu um dia depois de milhares de estudantes e opositores irem para as ruas de Caracas para protestar contra a reforma. Dezenas de pessoas ficaram feridas em violentos confrontos com a polícia. Muitas foram presas.

Gabinete convocado para manifestações

Quase todos os ministros e assessores do primeiro escalão do governo foram convocados para a manifestação e pela manhã já estavam nas ruas, ajudando a organizar a marcha e fazendo discursos.

- Não tenho dúvida de que vamos fazer quem fala em golpe de Estado amargar uma dura derrota. Eles não conseguirão acabar com a tranquilidade do país - disse o vice-presidente, Jorge Rodríguez.

O presidente da gigante estatal do petróleo PDVSA, Rafael Ramírez, também foi para a rua e disse que a reforma será vital para "se aprofundar o processo de conceder maior poder ao povo."

- Reformar a Constituição faz parte do processo democrático, que é dinâmico. Nosso país está mobilizado e não quer viver no passado, desconectado das novas realidades - disse.

Na sexta-feira, a Assembléia Nacional aprovou o pacote de mudanças em 69 dos 350 artigos da Carta Magna de 1999 e encaminhou o projeto para o Conselho Nacional Eleitoral (CNE), que convocou o referendo popular para dezembro. As alterações na Constituição fortalecem ainda mais o presidente, dando amplos poderes para interferir na economia e na política, além de lhe dar possibilidade de reeleição indefinida. A reforma também altera a noção de propriedade privada, cria o Poder Comunal e estabelece que o presidente pode decretar estado de exceção por tempo indefinido.

O projeto despertou reações de ONGs de direitos civis, da Igreja, de partidos de oposição e de entidades estudantis. Ontem, os opositores anunciaram que pretendem iniciar uma campanha pela abstenção.

- Com exceção do partido Primeiro Justiça, podemos afirmar que a oposição avança para a abstenção do referendo da reforma constitucional - afirmou o líder oposicionista José Vicente Rangel.

Já o líder da Aliança Bravo Povo (ABP), Antonio Ledezma, pediu que a Justiça investigue os recursos usados pelo governo nas manifestações, além de acusações de que funcionários públicos são obrigados a participar das marchas.

- O governo obriga os empregados de empresas públicas a irem para as ruas, sob pena de cortes nos salários, outras punições e até demissão.

Entidades estudantis prometem mais manifestações e cogitam fazer vigílias noturnas.