Título: Sarkozy liberta 7 europeus detidos no Chade
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Fonte: O Globo, 05/11/2007, O Mundo, p. 26
Presidente da França viaja de surpresa à África para obter acordo. Dez dos acusados de tentar seqüestrar crianças seguem presos.
PARIS. O presidente da França, Nicolas Sarkozy, conseguiu ontem obter avanços na delicada negociação pela libertação de europeus detidos no Chade há dias sob acusação de tentar seqüestrar 103 crianças. Sarkozy viajou de surpresa ao país africano e partiu horas depois ao lado de quatro aeromoças espanholas e três jornalistas franceses, que integravam o grupo de 17 europeus detidos após tentarem levar para a França mais de cem crianças. A maioria dos que seguem detidos integra a ONG Arca de Zoé. Eles alegam que as crianças eram órfãs da guerra de Darfur. Uma investigação, entretanto, provou que a maioria das crianças tem família e é, na verdade, do Chade.
¿ A França confia no Estado e no sistema de justiça chadiano. Quero agradecer ao presidente Deby (Idriss Deby Itno, do Chade) por sua compreensão e por sua ajuda ¿ declarou Sarkozy, pouco antes de retornar à Europa.
O presidente francês declarou ainda que prefere ver franceses julgados em cortes francesas, e acrescentou que ocorrerão negociações entre os judiciários dos dois países para encontrar ¿em poucas semanas, uma solução que respeite a Justiça do Chade e dê garantias totais a todos os envolvidos¿.
Zapatero agradece boa vontade do Chade
Os sete europeus liberados foram conduzidos por escolta militar de uma prisão na capital do Chade, N¿Djamena, até uma corte de Justiça, onde foram formalmente liberados. Todos embarcaram no avião da comitiva de Sarkozy, que fez escala em Madri para deixar os cidadãos espanhóis.
¿ Estou bem e estou feliz ¿ disse o repórter fotográfico francês Jean-Daniel Guillou.
Na capital espanhola, Sarkozy e os europeus liberados foram recebidos pelo presidente do governo espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero.
¿ Quero expressar meu agradecimento ao presidente do Chade, porque está tendo uma atitude positiva que permitiu a volta para casa dos primeiros espanhóis e dos primeiros franceses depois de alguns dias extremamente complicados ¿ disse Zapatero
Seis dos europeus que continuam em custódia no Chade fazem parte da ONG francesa. Há ainda três espanhóis integrantes da equipe aérea e um piloto belga.
Penas podem chegar a 20 anos de trabalho forçado
Segundo a imprensa francesa, a presença de tropas da França no Chade teria facilitado as negociações entre Sarkozy e Itno. A França, que foi uma força colonial na região no passado, provê cerca da metade dos três mil integrantes da força da União Européia que estão na violenta região leste do Chade para proteger refugiados sudaneses e chadianos.
Os europeus foram presos na cidade de Abeche, perto da fronteira com o Sudão, onde fica a conturbada região de Darfur, enquanto tentavam voar para a França levando 103 crianças, com idades entre 1 e 10 anos. Os integrantes da ONG disseram que a intenção era realocar os órfãos de Darfur junto a famílias européias. Mas o Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur), o Fundo da ONU para a Infância e a Adolescência (Unicef) e o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) afirmaram que pelo menos 91 das 103 crianças viviam com suas famílias, com pelo menos um adulto que elas consideram ser seu pai ou sua mãe.
Seis membros da Arca de Zoé podem ser condenados a até 20 anos de trabalhos forçados no Chade e, segundo diplomatas europeus, trata-se do grupo mais difícil de ser liberado para retornar à Europa.