Título: Leilão de linhas de transmissão de energia, no dia 7, será estratégico
Autor: Tavares, Mônica
Fonte: O Globo, 02/11/2007, Economia, p. 28

O GARGALO É NOSSO: Ligação reduz riscos, mas especialista alerta para geração.

Há 27 empresas interessadas, com investimento previsto de R$1 bilhão.

BRASÍLIA. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) vai realizar no próximo dia 7 o primeiro leilão para a concessão de linhas de transmissão do ano. Serão licitados sete lotes com nove linhas de transmissão e três subestações, na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro. A licitação está atraindo um grande número de interessados - 27 empresas se pré-qualificaram para participar - e vai envolver investimentos de R$1,051 bilhão. O governo entende que a licitação é estratégica para enfrentar problemas de abastecimento de energia.

O maior número de linhas de transmissão no país é uma medida positiva para a saúde do setor elétrico brasileiro. Elas aumentam as vias por onde a energia poderá ser escoada pelo território nacional. Em casos de desequilíbrio energético, quanto maior mobilidade, menor serão os problemas de abastecimento. As linhas de transmissão que serão leiloadas vão cortar dez estados - Alagoas, Ceará, Maranhão, Mato Grosso, Paraná, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Sul, Sergipe, Tocantins - e terão 1.930 quilômetros de extensão.

Uma região com excesso de água nos reservatórios das hidrelétricas, por exemplo, pode enviar energia para onde está faltando. O racionamento de energia, que ocorreu entre junho de 2001 e fevereiro de 2002 no Brasil, poderia ter sido menor se houvesse mais transmissão. Havia sobra de energia na Região Sul, mas não existia rede suficiente para enviá-la ao Sudeste.

Térmicas a óleo têm custo político, afirma consultor

Ao mesmo tempo, a medida pode ser inócua caso haja problemas generalizados de transmissão - como um blecaute que atingiu em cascata todo o Sudeste em 1999. Além disso, não haverá de onde tirar energia, segundo o consultor Afonso Henriques, ex-diretor da Aneel e ex-secretário de Energia do Ministério de Minas e Energia, uma vez que não existe geração suficiente para atender a toda a demanda.

- A linha de transmissão não cria energia. Com todo o sistema interligado, o Brasil inteiro pode ficar sem energia - alertou.

Para Afonso Henriques, o governo agiu corretamente ao ligar as termelétricas, porque não se pode deixar que os reservatórios das hidrelétricas baixem. Ele afirmou que fez esta proposta há cinco anos e criticou o modelo de operação usado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Para ele, também é equivocada a política do governo baseada em hidrelétricas, pois precisa ser complementada por termelétricas.

- Não precisaria faltar gás, se o governo tivesse a coragem de ligar as térmicas a óleo - disse ele, reconhecendo, porém, que isso levaria a um aumento de tarifas muito grande, e que o governo não tem coragem de assumir esse ônus político.

Vencerão o leilão os grupos que oferecerem a menor tarifa para prestação do serviço. Desde 1998, a Aneel licitou e autorizou 32 mil quilômetros de extensão de linhas de transmissão. Desses, 23,1 mil já estão em operação comercial. Em 2006, foram energizados 3.197,2 quilômetros de linhas. Em 2007, o total soma 298,4 quilômetros e estão previstos mais 1.237 quilômetros até o fim do ano. Atualmente, estão em operação 83,9 mil quilômetros de linhas no Sistema Interligado Nacional (SIN). Para 2008 deverão entrar em operação 5,8 mil quilômetros.