Título: Esperança e vontade
Autor: Batista Jr., Paulo Nogueira
Fonte: O Globo, 03/11/2007, Opinião, p. 7

Anteontem, o francês Dominique Strauss-Kahn assumiu o comando do FMI. Socialista de estilo pragmático, foi ministro das Finanças do governo Lionel Jospin. Fez campanha para o cargo de diretor-gerente do Fundo como "candidato das reformas". Anunciou que pretende implementar um programa ambicioso de mudanças. Fez questão de dizer, mais de uma vez, que queria ser o candidato não apenas do Norte, mas também do Sul, e endossou várias da preocupações dos países em desenvolvimento.

Acabou eleito por amplo consenso na diretoria-executiva do Fundo, e contou com o voto do Brasil e dos outros oito países do nosso grupo. Decidimos apoiá-lo porque temos a esperança de que ele ponha em prática as reformas de que a instituição tanto precisa para recuperar relevância e legitimidade.

Como Strauss-Kahn lembrou em artigo publicado no "Wall Street Journal", deve-se levar em conta "a nova geografia econômica em que economias emergentes estão se tornando atores importantes na economia mundial, um fato que ainda está por ser refletido no poder de voto no FMI". Strauss-Kahn prometeu, no mesmo artigo, tentar chegar rapidamente a um acordo que promova um "significativo aumento" nas quotas daqueles países cuja influência crescente não está devidamente considerada na estrutura do Fundo.

Para fazer jus a essas promessas, Strauss-Kahn terá que agir com firmeza e rapidez. As forças da inércia e do "status quo" são consideráveis. A principal resistência é dos europeus ocidentais, justamente aqueles que lançaram a sua candidatura. Até o governo George W. Bush parece mais aberto à reforma da estrutura de votação do Fundo do que os europeus, supostamente tão progressistas, esclarecidos e internacionalistas.

A Europa é a região mais sobre-representada no Fundo. Tem oito das 24 cadeiras da diretoria (terá nove em breve, se o governo Chávez não indicar um substituto para o diretor venezuelano que acaba de renunciar). As oito cadeiras comandadas por europeus (sete países da União Européia e a Suíça) controlam 36% dos votos, mais do dobro dos votos dos EUA. Países europeus pequenos, como a Bélgica e a Holanda, têm mais votos do que o Brasil ou a Índia.

Os europeus não querem abrir mão do que tem. O que eles normalmente entendem por "reforma" é o que aos nossos olhos parece mera distribuição de migalhas, ajustes marginais nas quotas e nos votos.

A questão, portanto, é saber se o novo diretor-gerente terá força para se desgarrar do que parece ser a preferência arraigada dos seus compatriotas e demais europeus ocidentais pela preservação do "status quo".

Não é imposível. Confiamos na sua disposição de enfrentar interesses estabelecidos. Afinal, como ele próprio observou, a Europa deveria entender que para ela é melhor ter uma representação menor, porém, ainda muito significativa, em uma instituição viva, aceita em todo o mundo, do que ter um peso inflado em uma instituição que sofre de problemas crescentes de credibilidade.

Não convém nutrir esperanças, recomendava Schopenhauer. Ele tinha alguma razão, mas menos do que talvez pareça. No fim das contas, esperança, espírito de luta, confiança, tudo isso é questão de temperamento, vontade, vitalidade.

Prefiro ficar, nesse ponto, com Roberto Marinho. Em certa ocasião, ele queria nomear uma pessoa para uma importante posição na empresa. O seu círculo de assessores mais imediatos era radicalmente contra. "O sujeito não é de confiança", disseram, "vai te trair na primeira esquina". Roberto Marinho retrucou: "Prefiro ser traído de vez em quando do que andar por aí desconfiando de todo o mundo."

PAULO NOGUEIRA BATISTA JR. é economista e diretor-executivo pelo Brasil e mais oito países no Fundo Monetário Internacional. E-mail: pnbjr@attglobal.net