Título: Lula pedirá mais gás a Morales
Autor: Damé, Luiza; Oliveira, Eliane
Fonte: O Globo, 09/11/2007, Economia, p. 21

Gabrielli chega hoje à Bolívia para discutir novos investimentos da Petrobras no país.

Opresidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu assumir as negociações para solucionar a crise de abastecimento de gás natural da Petrobras, que atingiu Rio de Janeiro e São Paulo. Lula conversou ontem por telefone com seu colega boliviano, Evo Morales. Ele informou a Morales que irá à Bolívia - principal fornecedor de gás natural ao Brasil - no dia 12 de dezembro. Em outra frente, o presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, viajou ontem a La Paz para, segundo uma fonte que participa das discussões sobre o tema, encontrar-se hoje com Evo Morales. Gabrielli dirá que há disposição de investir na prospecção de novos campos de gás, desde que aumente a exportação do insumo para o Brasil, hoje em 27 milhões de m por dia.

Ontem à noite, sem alarde, Lula convocou uma reunião com ministros e autoridades do setor elétrico para estudar medidas que evitem a falta de gás no futuro. Estavam presentes os ministros da Casa Civil, Dilma Rousseff, de Minas Energia, Nelson Hubner, da Comunicação Social, Franklin Martins, os presidentes da Petrobras, da Agência Nacional de Petróleo, Haroldo Lima, da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim, e os diretores-gerais da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Jerson Kelman, e do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Hermes Schipp.

- Todos sabemos que a Petrobras tem de fazer um investimento, para que possamos ter garantia de que a Bolívia vai ter mais gás para exportar, não apenas para o Brasil, mas para a Argentina. Estamos discutindo o projeto do gasoduto com a Venezuela. Estamos fazendo o que precisa ser feito para garantir que o Brasil tenha tranqüilidade energética no futuro bastante longo - afirmou Lula mais cedo, depois da conversa com Morales.

O gás foi o principal tema da reunião de coordenação de governo, pela manhã. Para o Palácio do Planalto, o auge da crise de abastecimento no Rio e em São Paulo foi superado, porque as chuvas elevaram o nível dos reservatórios das hidrelétricas. Também ajudou o fato de o Superior Tribunal de Justiça (STJ) ter derrubado, na quinta-feira, uma liminar que obrigava a Petrobras a fornecer 1,3 milhão de metros cúbicos de gás para a usina William Arjona, de Campo Grande (MS). Com isso, haverá mais combustível para abastecer o mercado.

Foi Lula quem tomou a iniciativa de ligar para Morales, às 15h de ontem. O telefonema durou cerca de 15 minutos, e os dois presidentes concordaram em conversar no fim da semana, durante a Cúpula Ibero-Americana, em Santiago do Chile. Pesou nessa investida a avaliação de que, com a economia crescendo, não é possível dispensar o gás boliviano. A importação de gás de outros mercados, como a Nigéria, levaria cerca de 20 dias.

- A mensagem do presidente foi de otimismo: de que a visita da Petrobras e a reunião de dezembro poderão representar a retomada dos investimentos necessários para a Bolívia e importantes para o Brasil. Existe a determinação do governo brasileiro de fomentar esses investimentos - disse o porta-voz da Presidência, Marcelo Baumbach.

Déficit diário é de 30 milhões de m

Mas, para o diretor de Negócios da consultoria Gas Energy no Rio, Pedro Camarota, será difícil conseguir um aumento significativo das importações de gás da Bolívia antes de 2012. Segundo ele, a prioridade boliviana é atender o contrato de venda com a Argentina, que prevê aumento das exportações dos atuais 2 milhões a 4 milhões de m por dia para 27,7 milhões de m diários em 2010. A produção boliviana atual gira em torno de 40 milhões de m por dia. O consultor acredita que a Bolívia só conseguirá atender a Argentina em 2012.

- Dificilmente a Bolívia aceitará aumentar o volume de gás, a não ser que o Brasil aceite pagar mais. Pagamos menos que a Argentina - disse Camarota, que estima em 30 milhões de m/dia o déficit de gás do Brasil.

No Rio, o governador Sérgio Cabral determinou a aceleração das análises ambientais para o licenciamento de terminais de gás natural liquefeito (GNL) nos portos para receber navios-tanque com o combustível. Cabral afirmou ainda que não aceitará redução no volume de gás que era entregue pela Petrobras à CEG e à CEG-Rio até o mês passado:

- Já avisei a Petrobras que não aceito redução. Aceitamos pactuar para frente. O Rio não pode parar por conta de falta de infra-estrutura.

COLABOROU Dimmi Amora

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