Título: PF prende 20 envolvidos em remessas ilegais
Autor: D'Ercole, Ronaldo
Fonte: O Globo, 07/11/2007, Economia, p. 25

Esquema incluía subfaturamento de importações e teria gerado perdas de R$1 bilhão em impostos sonegados.

SÃO PAULO. A Polícia Federal prendeu ontem 20 pessoas, entre elas doleiros, empresários e três executivos de grandes bancos internacionais (UBS e Clariden Leu, da Suíça, e AIG, dos Estados Unidos), por envolvimento num esquema de remessas ilegais de divisas e subfaturamento de importações, que teriam gerado perdas de R$1 bilhão em impostos sonegados. Além das prisões, foram cumpridos 45 mandados de busca e apreensão em quatro estados (São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Amazonas), em que R$6 milhões e US$700 mil em dinheiro foram apreendidos. Outros R$2 milhões depositados em contas bancárias dos envolvidos também foram bloqueados pela PF.

Batizada de Operação Kaspar II, a ação da PF foi uma complementação de uma investigação iniciada no ano passado, chamada Operação Suíça. O alvo da PF eram operações de remessas de divisas realizadas por um escritório do banco Credit Suisse, em São Paulo. A partir da identificação de doleiros que teriam operado com o banco suíço, em março deste ano, a PF deflagrou a Operação Kaspar I, que resultou na prisão de Peter Schaffner, alto executivo do Credit Suisse, detido no Aeroporto Internacional de São Paulo (Cumbica) quando tentava deixar o país.

Segundo o delegado da PF Ricardo Saadi, que coordena a Operação Kaspar II, depois dessas ações o esquema mudou: as instituições financeiras teriam passado a enviar executivos diretamente de suas matrizes para cuidar dos negócios com clientes e doleiros no Brasil.

- Grandes empresas daqui, que mantêm caixa dois, faziam contato com doleiros que mantinham relação com os bancos - contou Saadi.

Os bancos envolvidos abririam contas numeradas para os clientes lá fora para dificultar a identificação. Os recursos então seriam remetidos pelos doleiros via "cabo", transação pela qual transferiam recursos que mantêm lá fora para as contas numeradas dos clientes, e receberiam aqui em reais.

- Não havia transferência física de dinheiro, mas compensação de valores - explicou o delegado da PF.

O dinheiro remetido ficaria nas contas, ou seria usado para complementar os valores de compras de produtos nos Estados Unidos e na China, que seriam exportados para o Brasil com preços subfaturados nas notas.

Entre as empresas que se beneficiariam do esquema e que foram alvo de buscas e apreensões ontem estão a Le Postiche (comércio de bolsas), a Ornare (fabricante de móveis) e a Gold (chaves e cadeados). A Le Postiche confirmou que agentes da PF estiveram em seus escritórios e informou que nenhum executivo seu foi preso.

UBS diz que detido não tem relação com suas operações

O UBS Pactual, braço do UBS no Brasil, informou que o funcionário detido pela PF não tem relação com suas operações, por isso não se pronunciaria. Já a filial do Credit Suisse, que controla o Clariden Leu, informou que a questão estava a cargo da matriz, em Zurique. O AIG não se manifestou sobre o assunto.

Segundo Saadi, os envolvidos no esquema remetiam ilegalmente para fora do país entre US$6 milhões e US$7 milhões por mês. Os executivos, doleiros e empresários detidos ontem pela PF devem ter a prisão temporária (de cinco dias) prorrogada e responderão pelos crimes de evasão de divisas, lavagem de dinheiro, sonegação, formação de quadrilha e gestão fraudulenta de instituição financeira.