Título: MST ocupa e depreda ferrovia da Vale no Pará
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Fonte: O Globo, 08/11/2007, O País, p. 12
Quatro funcionários foram feitos reféns. No mesmo dia, em Brasília, Lula recebeu líderes nacionais do movimento.
BELÉM e BRASÍLIA. Pela segunda vez em 30 dias, a ferrovia de Carajás, no sudeste do Pará, foi novamente invadida e ocupada por agricultores ligados ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). A ação, desta vez, foi maior e mobilizou mais gente: armados de picaretas, foices e facões, os invasores bloquearam a saída de trens do pátio ferroviário próximo à estação de Parauapebas, depredando duas locomotivas da Companhia Vale do Rio Doce. Quatro funcionários da empresa foram mantidos como reféns por 30 minutos. Eles contaram que os invasores estavam vestidos de preto e encapuzados.
A Vale suspendeu as operações na ferrovia e pediu a intervenção do Ministério da Justiça e da governadora paraense, Ana Júlia Carepa, para que seja cumprida decisão liminar da Justiça Federal de retirada dos invasores. Um dos coordenadores do MST, Charles Trocate, informou que cerca de seis mil agricultores de 14 assentamentos e nove acampamentos estão no local e ameaçam não sair enquanto os governos federal e estadual não atenderem às suas reivindicações: a construção de dez escolas, asfaltamento de 200 km de estradas vicinais que dão acesso a assentamentos, postos de saúde equipados, unidades infantis e crédito para plantar.
Patrus Ananias ligou para o assentamento Palmares
Ao saber da nova invasão, o ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias, ligou para o assentamento Palmares, onde estava reunido o comando do MST, manifestando surpresa.
- Ele disse que queria um tempo para avaliar as nossas reivindicações, prometendo que retornaria no final da tarde com uma resposta - contou Trocate.
O MST decidiu que só aceita negociar a desobstrução dos trilhos com a presença das autoridades no local.
Em nota, a Vale informou que os invasores chegaram ao local quando duas locomotivas manobravam no pátio com 126 vagões vazios. Aos gritos, ameaçaram arrombar as portas das locomotivas, caso não fossem abertas. Enquanto o sistema de freios era cortado, os agricultores que ficaram do lado de fora apedrejavam as composições e as golpeavam com picaretas.
A empresa informou que ainda está em vigor a liminar concedida no dia 17 de outubro passado pelo juiz federal Francisco de Assis Garcês Castro Júnior, de Marabá. A decisão garante a reintegração de posse da ferrovia à Vale com utilização de força policial e ainda estabelece multa diária de R$10 mil, se o movimento não a desocupar.
Os agricultores liberaram a passagem dos trens, mas montaram barracas de lona perto dos trilhos. Na prática, segundo a Vale, a decisão judicial não foi integralmente cumprida, porque pairava a ameaça de nova ocupação, que acabou acontecendo ontem.
No dia que integrantes do MST ocuparam a Vale, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu um grupo de líderes do movimento no Planalto. O ministro do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel, que participou do encontro, minimizou a reunião, que classificou como uma "reflexão conjunta do campo brasileiro". Entre os presentes estava João Pedro Stédile.
Do O Liberal