Título: Interesses políticos predominam
Autor: Damé, Luiza; Tavares, Mônica
Fonte: O Globo, 08/11/2007, Economia, p. 26
Lula tenta assumir liderança não ocupada por Chávez na Bolívia.
BRASÍLIA. As últimas declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva demonstram a roupagem política que ele quer dar às negociações entre Brasil e Bolívia em torno das importações de gás natural daquele país. As razões são variadas e passam pela mais do que provável redução da influência do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, junto ao boliviano Evo Morales - o que abre espaço para Lula reforçar sua liderança sobre o vizinho, com reflexo para toda a América do Sul.
Chávez, que apoiou a nacionalização das reservas de gás e petróleo na Bolívia, teria decepcionado Morales, ao não cumprir todas as promessas que fez ao presidente boliviano. A poderosa petrolífera venezuelana PDVSA, tida como possível substituta da Petrobras naquele país, não se mexeu quando as autoridades bolivianas pediram socorro. Assim, a estatal brasileira emerge como a grande salvadora, disposta a prospectar novos campos de gás - garantindo dividendos políticos a Lula.
Segundo fontes da área diplomática e do Palácio do Planalto, interessa também ao Brasil a estabilidade política na Bolívia. A fronteira com o país vizinho, lembrou um diplomata, tem mais de três mil quilômetros. O surgimento de um confronto armado resultante do movimento separatista, movido por alguns estados opositores ao governo de Morales, preocupa autoridades brasileiras.
Esse movimento foi deflagrado pela região conhecida por Media Luna, formada pelos departamentos de Santa Cruz, Pando, Beni e Tarija. Os governadores reivindicam maior autonomia na reforma constitucional em curso. O governo brasileiro acompanha com atenção o caso, uma vez que três dos quatro departamentos fazem fronteira com o Brasil. (Eliane Oliveira e Luiza Damé)