Título: Desafios de Brasília
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Fonte: Correio Braziliense, 21/04/2009, Opinião, p. 28

Presidente idealista, Juscelino Kubitschek vislumbrou o futuro ao juntar-se a Oscar Niemeyer e Lucio Costa e construir a capital da República em área inóspita do Planalto Central do país. A ousadia, levada adiante sob fortes críticas da oposição, que não via no projeto mais do que quimera e desperdício, resultou num dos principais símbolos do desenvolvimento, da modernidade e da integração nacional no século passado. Como previsto, Brasília se consolidou como importante pólo político e cultural e contribuiu para promover a ocupação e o crescimento das regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste. Mas foi além: extrapolou as fronteiras com a sua originalidade e se projetou para o mundo como fantástica obra da inteligência humana, alçada ainda bem jovem a Patrimônio Cultural da Humanidade, motivo de orgulho para todo brasileiro.

Passados 49 anos, a cidade oferece aos moradores padrão de qualidade de vida raro no país. Contudo, não deixa de padecer dos desgastes típicos das grandes metrópoles. Projetado para 500 mil habitantes, o Distrito Federal já tem cinco vezes mais. O inchaço superou todas as expectativas. Municípios goianos e mineiros localizados nas proximidades incharam junto. Desprovidos de infraestrutura mínima, sobrecarregam os serviços da capital federal, saturando hospitais, centros de saúde, sistema de transportes, rede pública de ensino. O planejamento não acompanha a explosão demográfica e se torna obsoleto. A equação entre a renda per capita do DF ¿ que passa de R$ 1,1 mil e é a maior do Brasil ¿ e a miséria da periferia resulta na pior distribuição de renda do país.

Em meados do século passado, o brasileiro foi capaz de criar e implantar, na sede da República, relações espaciais integradas em conjuntos harmoniosos e dotadas das melhores estruturas urbanas. É inadmissível que no século 21 não esteja apto a preservar essa grande conquista. Mais do que isso, fazê-la evoluir, para que as disfunções de hoje sejam superadas e o modelo imaginado em 1957 se mostre ainda uma vez eficaz. Nesse sentido, foi importante passo o recente basta dado à onda de invasões de terras. Agora está em andamento o processo de regularização da situação fundiária, ação impositiva que precisa ser tratada pelas autoridades e órgãos responsáveis com a devida urgência.

Brasília não pode cair na vala comum das metrópoles. Sua função intrínseca é a de capital da República, como é igualmente da sua essência o espírito de vanguarda, a vocação para a liderança. Cabe aos governos local, federal, goiano e mineiro intervir para que o sonho vitorioso de JK não se descaminhe para um futuro incerto. As correções de rumo exigem ação conjunta e integrada, antes que fujam ao controle os problemas sociais, de transporte, saúde, educação e segurança pública que se acumulam. Não dá para solucionar tudo antes do aniversário de primeiro meio século, a se comemorar em 21 de abril de 2010. Mas inequívoca demonstração de vontade política para a recuperação do projeto original por parte dos respectivos governantes é obrigação moral, uma dívida que a nação deve cobrar.