Título: Acostumado a cantar, não escutou
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Fonte: O Globo, 12/11/2007, O Mundo, p. 22

Havia sossego. O presidente Hugo Chávez chegou ao Chile cantando. Uma canção que diz: ¿Não sou uma moedinha de ouro para cair bem a todos.¿ Não cai bem a todos. E ele deve saber porque, caso contrário, não cantaria esta canção.

Está em conflito com José María Aznar, que pelo que Chávez crê e pelo que lhe parece, teria incentivado, ou tolerado, ou feito vista grossa à intenção de derrubá-lo do poder. Aproveitou a Cúpula Ibero-Americana para voltar a dizê-lo, chamando o ex-presidente do governo espanhol de fascista reiteradamente. O atual presidente do governo, o socialista José Luis Rodriguez Zapatero, em bom juízo, saiu em defesa de seu antecessor. Explicou a Chávez que pode-se estar em desacordo com as pessoas, com suas idéias, mas que é preciso respeitá-las. Mas Chávez, carregado de razão (no sentido de que acreditava estar de posse da verdade, e que deveria dizê-la ainda que o outro estivesse de posse da palavra), seguiu falando, enquanto Zapatero continuava pedindo-lhe ¿ sem êxito ¿ que ouvisse em silêncio os seus argumentos. Até que o rei Juan Carlos, que já tinha demonstrado estar enfastiado, se adiantou e disse esta frase, que agora será a frase do ano: ¿Por que não se cala?¿, com todas as suas interrogações e interjeições, porque não foi uma pergunta e sim uma advertência.

Chávez continuou gesticulando e falando, porque o homem não pode ficar quieto. E logo vieram as reações. Pareceu-me curiosa a de Gabriel Elorriaga, do Partido Popular, que colocava a culpa do incidente em Zapatero. A verdade é que não entendo porque dão a honra a Zapatero também neste caso: é culpado de tudo, ao olhos do PP, e também disto?, pergunto eu, também com as mesmas interrogações e interjeições. Creio que o rei reagiu como qualquer um que queira escutar o argumento de outro quando um terceiro fala. E penso, também, que este incidente diplomático irá se desfazer em breve, muito em breve.

Não que eu queira dar uma de oráculo, mas me parece que dois países tão grandes, e tão condenados a se entender, não podem se distanciar apenas porque alguém pede ao outro para que escute. Acostumado a cantar, e quando se canta não se escuta, Chávez quis ser o único vocalista, e o rei se cansou. Que houve de tão espetacular na sua saída da sala? Alguma vez teria que acontecer, ou para ser monarca não se tem sangue nas veias?

Por que não se cala? A frase dará o que falar, e será declarada de utilidade pública.

JUAN CRUZ é colunista do jornal espanhol El País