Título: Entre a angústia na fila e o aluguel do jatinho
Autor: Freire, Flávio
Fonte: O Globo, 11/11/2007, O País, p. 10

`Não dá para acreditar em quem vendeu passagem sabendo que a empresa poderia fechar¿, diz faxineira.

SÃO PAULO. As más condições do sistema aéreo brasileiro levaram para o olho do furacão tanto os que dependem dos vôos para fechar grandes negócios como os que tiveram que contar moeda para a tão sonhada primeira viagem de avião. De classes sociais diferentes, Maurício e Ivania enfrentam, cada um à sua maneira, problemas provocados pela má gestão na aviação comercial em meio ao transtorno nos aeroportos.

Com o orçamento apertado, a faxineira Ivania Guimarães da Silva fez muita conta até assumir uma despesa de R$360, dividida em cinco vezes no cartão de crédito, para voltar à sua cidade natal, União dos Palmares, Alagoas, de onde saiu há 11 anos. Com passagem da BRA para 18 de janeiro nas mãos, Ivania teme não ser desta vez que voltará a ver sua mãe. Tudo dependerá se a companhia honrará o acordo, feito na última sexta-feira, de creditar uma parcela já descontada do cartão e ainda cancelar as outras quatro. Caso contrário, o sonho, que incluía ver pela primeira vez os três únicos sobrinhos, vai ser adiado.

Desconfiança e medo de mais prejuízos

Ivania tem dividido a rotina entre o trabalho e o plantão numa loja da BRA, no Centro de São Paulo. Ela quer ter certeza de que não continuará pagando no cartão por algo que não consumiu.

¿ Não dá para acreditar nas palavras de quem agiu de má-fé, vendendo passagem mesmo sabendo que a empresa poderia fechar ¿ diz Ivania, sem condições de assumir outra despesa antes que tudo seja acertado.

Sem problema de caixa, o empresário Maurício Junot, dono de uma fábrica de blindagem de automóveis, optou nos últimos anos por voar de jatinho executivo toda vez que tem alguma reunião em que é primordial chegar na hora certa.

¿ Não dá para confiar na aviação comercial. Além disso, é uma questão de credibilidade chegar no horário. E credibilidade não tem preço ¿ diz ele, que chega a gastar R$6 mil por mês para voar de helicópteros duas vezes por semana entre o escritório de onde despacha e a fábrica.

Jorge Bittar Neto, presidente da Helimarte, empresa de táxi aéreo que opera no Campo de Marte, em São Paulo, afirma que a demanda cresceu desde outubro do ano passado, quando a crise no setor se acentuou.

¿ A aviação executiva transformou-se na salvação para quem não pode perder negócios ¿ diz ele.

O fretamento de um jatinho com seis lugares no trajeto São Paulo-Brasília não sai por menos de R$30 mil.

¿ O preço é alto, mas eu consigo disponibilizar um vôo para o meu cliente em menos de uma hora ¿ diz Bittar.