Título: Caos ajudou na quebra da BRA, diz especialista
Autor: Farah, Tatiana
Fonte: O Globo, 11/11/2007, O País, p. 11

Custo das empresas cresceu com atrasos e cancelamentos.

SÃO PAULO. Além de infernizar a vida dos passageiros, o caos aéreo tem uma relação, mesmo que remota, com a quebra da BRA, diz o especialista em planejamento estratégico e aviação Adalberto Fischmann, da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP):

¿ Existe, mas é remoto. Com a crise aérea, o custo das empresas aumentou muito, pois elas passaram a ter mais despesas com os passageiros devido a atrasos e cancelamentos ¿ diz Fischmann.

O professor frisa, porém, que a competição com Gol e TAM, grandes empresas, tornou muito difícil o cenário para a BRA. Para Fischmann, a Anac, como agência reguladora, deveria intervir o mínimo no mercado:

¿ No Brasil temos o resquício do sistema regulador, de achar que o sistema tem de regular, tem de estar em cima. Você vê o absurdo de Anac exigir que a TAM e a Gol transportem os passageiros da BRA sem receber por isso. Acho temerário esse tipo de interferência.

Sobre segurança, ele cobra mais controle da Anac:

¿ Quando você compra uma passagem, não tem a mínima idéia se a manutenção foi bem-feita e se o piloto foi bem-treinado. Alguém tem de te garantir isso e quem tem de garantir isso é a Anac. Nessa hora eu concordo: a Anac precisa ter uma equipe mais forte de fiscalização.

Embora critique a fiscalização, o professor da USP afirma que a aviação brasileira é segura. Fischmann e o especialista em transportes aéreos Respício Espírito Santo Jr., da UFRJ, não associam os acidentes aéreos recentes ao caos no setor. Para eles, a situação dos passageiros amontoados e sem informação nos aeroportos são a grande demonstração do caos.

Desembargador critica falta de transparência do setor

Já o professor Newton De Luca, da Faculdade de Direito do Largo São Francisco ¿ especialista em direito comercial, do consumidor e do setor aéreo ¿ critica a falta de transparência. Desembargador do Tribunal Regional Federal de São Paulo, ele organizou um debate semana passada com autoridades de todo o país e ficou surpreso com a informação do diretor do Departamento de Defesa do Consumidor do Ministério da Justiça, Ricardo Morishita:

¿ Ele disse que precisou de ajuda da PF (Polícia Federal) para ter acesso às informações das empresas aéreas. Se uma autoridade tem dificuldade, imagine o consumidor. Eu fico revoltado ¿ disse De Luca.

Segundo de De Luca, o problema do setor aéreo cresce ao se analisar o sistema de transportes do país:

¿ O transporte aéreo não é de elite. Temos nossas rodovias sucateadas, nossas ferrovias de uma pobreza franciscana, as hidrovias são inexistentes... Então, o transporte aéreo não é de rico nem de pobre. (Tatiana Farah)