Título: Pobre não pode viajar de avião, desabafa passageiro em Guarulhos
Autor: Barbosa, Adauri Antunes
Fonte: O Globo, 09/11/2007, O País, p. 4

O CAOS CONTINUA: "Esperei 11 anos para ver minha mãe", reclama segurança.

No aeroporto, clientes da BRA tentam embarcar ou conseguir o reembolso.

SÃO PAULO. Francisco Pimentel de Castro, funcionário da segurança da Infraero em São Paulo, comprou passagens para viajar hoje para Fortaleza, mas não sabia se conseguiria embarcar. Ele pagou R$857,24 à vista, em dinheiro, como fez questão de mostrar no bilhete, para garantir o reencontro com a mãe, dona Osmarina, que mora no Ceará e que ele não vê há 11 anos.

- Não sei mais o que pode acontecer. Esperei 11 anos para ver minha mãe, para viajar, e acontece isso! - lamentou, depois de enfrentar uma longa fila ontem à tarde em frente à loja da BRA no Aeroporto Internacional de Guarulhos. Centenas de pessoas foram ao local na tentativa de reaverem, em vão, o dinheiro gasto na compra com as passagens da companhia.

Mais de uma hora depois de entrar na fila, Francisco não conseguiu ter certeza se embarcaria para Fortaleza. Seu vôo estava marcado para as 9h50m e a orientação que recebeu dos atendentes da BRA, como procedimento estabelecido com os fiscais do Procon e da Anac, presentes ao local, era que voltasse hoje ao aeroporto antes desse horário para tentar um lugar em algum vôo da Gol ou da TAM.

- Isso é uma palhaçada! É mais uma falha do governo. Eu culpo o governo, sim. Ninguém mais sabe quem administra o quê nesse país - desabafou, indignado, manifestando um sentimento comum entre os passageiros que procuraram a BRA ontem.

Decepcionada com a bancarrota da BRA, Liduína Amélia Santiago já tinha pagado, em cinco vezes no cartão de crédito, mais de R$5 mil por seis passagens de ida e volta para Fortaleza. Ela, o filho e quatro sobrinhos iam viajar no dia 20 de dezembro, esticando no Ceará as férias das festas de fim de ano até o carnaval, no começo de fevereiro.

- Nós compramos as passagens em junho. Meu sobrinho fez questão de pagar R$1.800 em dinheiro, na hora, que era para sobrar mais para gastarmos nas férias. E agora? O que vamos fazer? - perguntava, lembrando que a BRA não devolve os R$350 pagos pelo seguro da viagem. - Eles estão dizendo que é para esperar de 30 a 60 dias para o reembolso. Mas como eu vou conseguir comprar outras passagens até lá?

Passageira vai tentar cancelar fatura

Para Roberta Vanessa, que viajaria para Natal com o filho e o marido para passar o feriado da semana que vem, os atendentes da empresa informaram que a espera para o reembolso seria de 30 a 60 dias. Ela comprou as passagens para visitar parentes no Rio Grande do Norte, no cartão de crédito e em cinco parcelas, e ainda não tinha recebido a fatura com a primeira, que esperava cancelar.

- O governo tem que tomar uma atitude. Isso não pode ficar assim - reclamou.

Muito indignado, Francisco Dias da Silva, que embarcaria amanhã para Natal, disse que não tinha esperança de conseguir novas passagens e que tinha muita desconfiança em relação ao reembolso prometido pela empresa aérea em 30 ou 60 dias. Ele mostrou o comprovante de seu pedido de reembolso fornecido pela BRA: uma cópia em fax na qual mal se enxergava os termos do compromisso:

- Querem brincar com as pessoas que têm menos. Pobre não pode viajar de avião. Se pobre quer viajar, que vá de ônibus ou de pau-de-arara.

Menos estressado que a maioria nordestina de passageiros que procurava seus direitos na loja da BRA ontem, em Guarulhos, o gaúcho Admo Costa comprou outras passagens pela Gol para ele e a irmã, Andresa, conseguirem voltar ontem mesmo a Porto Alegre. Enquanto Andresa enfrentava a fila para ser atendida, Admo comprou as novas passagens, sem querer se arriscar nas sobras em vôos de outras companhias:

- Ficamos com medo de ficar sem passagem. Não conseguir embarcar é bravo.

Edna Rodrigues dos Santos quase armou uma confusão na loja da BRA quando uma funcionária não garantiu que ela receberia de volta o valor das duas passagens de ida e volta que comprara para Fortaleza. Ela fotografou a funcionária com o celular e fez a moça assinar uma declaração, que fez a mão, comprometendo a empresa a devolver o que tinha pago.

- Vou processar todo mundo. Ficam rindo da cara da gente numa hora dessas - protestou Edna. - Por que o governo não exigiu que os passageiros da BRA embarcassem na Gol e na TAM? Eles têm avião particular, da FAB, e não estão nem aí para o povão.