Título: Governo reconhece que números oficiais não refletem a realidade
Autor: Almeida, Cássia
Fonte: O Globo, 18/11/2007, O País, p. 32

ESTATÍSTICAS EM XEQUE: Oito mil professores afastados em SP, diz Previdência.

Entre as soluções em estudo, o uso de pesquisas do IBGE e bancos de dados.

O governo brasileiro admite: as estatísticas oficiais estão longe de contabilizar o número total de mortos no trabalho no Brasil. Essa constatação foi feita pelos ministérios da Previdência Social e o da Saúde. Recentemente, foi criada na Previdência a Diretoria de Saúde Ocupacional, para tentar melhorar a qualidade desses indicadores. Estuda-se a hipótese de usar a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, realizada anualmente pelo IBGE) para tentar levantar com mais precisão esses números.

- Incluindo os informais e servidores públicos, o número de mortes deve ser três vezes maior. O ideal seria usar a Pnad, para se ter uma periodicidade desses números - reconhece Remigio Todeschini, diretor da recém-criada Diretoria de Saúde Ocupacional da Previdência.

Ele também lamenta a falta de dados do serviço público e conta que, dos 60 mil professores de São Paulo, oito mil profissionais estão afastados por doença.

Pesquisadora propõe sistematizar banco de dados

Marco Antonio Pérez, coordenador da área de Saúde do Trabalhador do Ministério da Saúde, reconhece que a situação de segurança no trabalho é grave no Brasil e tende a piorar com o crescimento econômico, com cobrança por mais produtividade e aumento de jornada. O ministério já pediu ao Planalto que essa questão seja contemplada no PAC da Saúde.

- Só de motoboy, morre um por dia em São Paulo. É grave a situação. Em 2004, editamos portaria obrigando a notificação de agressões e acidentes de trabalho fatais e com menores de idade. E também a de doenças ocupacionais. Temos como objetivo integrar banco de dados, unindo Previdência e Saúde.

Segundo Pérez, a Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que somente de 1% a 6% das doenças ocupacionais são notificadas na América Latina e Caribe.

Francilene Pinheiro, mãe de Thiago, morto num assalto quando foi reconhecido como policial no fim do ano passado, chora a morte do filho, que ficou de fora das estatísticas:

- Tinha raiva quando alguém ria do meu lado, de tanta tristeza.

Ao lado de Zoraide Vidal, advogada e mãe de outra policial morta, ela vem dando apoio a outras mães. As duas já foram a mais de dez enterros este ano.

- São mães de policial civil, militar e de bandido também. Somos todas mães - diz a advogada, que atua há 25 anos no núcleo da OAB no Borel.

Para dar conta dessas estatísticas, Bernadette Waldvogel, pesquisadora da Fundação Seade, de São Paulo, propôs a integração de quatro grandes bancos de dados: o da Dataprev, com as comunicações de acidentes de trabalho, que é usado para medir o número de acidentes; o Sistema de Informações de Mortalidade e o de Internações Hospitalares, do Ministério da Saúde; e a Relação Anual de Informações Sociais, do Ministério do Trabalho.

- Seria o ensaio para formação de um Sistema Nacional de Monitoramento de Acidentes e Doenças do Trabalho. Esse procedimento permitiria elaborar uma base de dados mais completa, reduzindo a subnotificação de casos e de óbitos, e abrindo novas perspectivas de análise - diz Bernadette.