Título: Venezuela: pesquisas mostram avanço do não
Autor: Galeno, Renato
Fonte: O Globo, 27/11/2007, O Mundo, p. 30

A poucos dias do referendo sobre reforma constitucional, cresce tensão política no país. Jovem é assassinado.

CARACAS. Confrontos entre chavistas e antichavistas, enfrentamentos entre estudantes e policiais, e pesquisas de opinião que apontam uma tendência de crescimento do "não" fazem com que a Venezuela esteja vivendo momentos de tensão nos dias que antecedem o referendo de domingo sobre a reforma constitucional. Na cidade de Valencia, um jovem foi morto a tiros, supostamente por manifestantes adversários do presidente Hugo Chávez.

Segundo o vice-presidente venezuelano, Jorge Rodríguez, José Aníbal Oliveros Yépez, de 19 anos, não participava de qualquer manifestação, apenas tentava chegar ao seu trabalho, sendo impedido pelo protesto.

- Não encontraram (os antichavistas) um argumento melhor do que o homicídio de um jovem de 19 anos que cometeu o delito de ser responsável e querer ir para o seu trabalho - disse Rodríguez. - Não vamos permitir que esses assassinos instaurem o que desejam e o que já têm planejado.

Cerca de 80 pessoas foram presas na região. Segundo o vice-presidente, as "ações violentas" ocorrem porque a oposição está "desesperada porque sabe que o povo da Venezuela está com o presidente Chávez e dará respaldo à reforma".

Conselho eleitoral proíbe divulgação de pesquisas

O otimismo no discurso de Rodríguez, no entanto, ocorre num momento em que os principais institutos de opinião venezuelanos indicam uma tendência de crescimento do "não" à reforma. Ontem, o instituto Hinterlaces, que é vinculado a partidos de oposição, disse que o "não" à reforma tem 46% das intenções de voto, contra 45% do "sim". O resultado significa um empate técnico, pois a margem de erro é de quatro pontos percentuais. Uma semana antes, a aprovação da reforma superava o "não".

A apertada disputa - nas eleições anteriores, Chávez liderava nas principais pesquisas uma semana antes dos pleitos - preocupa o diretor da Hinterlaces, Oscar Schemel:

- Chávez está dirigindo o debate para um cenário de polarização entre chavismo e oposição, entre ricos e pobres, entre golpistas e revolucionários.

Em Caracas, estudantes da Universidade Simón Bolívar enfrentaram policiais, que proibiram uma passeata.

Porém, os dados da Hinterlace, por exemplo, não foram conhecidos pela maior parte da população venezuelana. Numa decisão polêmica, o Conselho Nacional Eleitoral decidiu impedir a divulgação de pesquisas desde domingo. A última pesquisa foi divulgada sábado, pelo instituto Datanálisis. Nela, o "não", com 58,7%, ultrapassou o "sim", que ficou com 48,9%.

Domingo e ontem, Chávez voltou a acusar a Igreja de golpista. Ontem, a Conferência Episcopal Venezuelana rechaçou recentes declarações do presidente de que, "do cardeal para baixo", a cúpula da Igreja católica no país é "o demônio", e composta por "vagabundos" e "estúpidos, retardados mentais". Também ameaçou prender o reitor da Universidade Católica Andrés Bello, padre Luis Ugalde.

"Todos os cidadãos têm o direito de ter uma opinião sobre a proposta de reforma, e de expressá-la", disse a CEV, em nota. "Assim, ninguém tem o direito de insultar quem discorde dela. Rechaçamos os ataques difamatórios e injuriosos contra o senhor cardeal Jorge Urosa Savino, os bispos em geral e outras personalidades e setores do povo venezuelano".