Título: Todo mundo errou
Autor:
Fonte: O Globo, 28/11/2007, O País, p. 4
Bispo critica família da menina e diz que governo fez o que podia.
SÃO PAULO. O bispo de Abaetetuba (PA), dom Flávio Jovenalli, disse ontem que a adolescente nunca recebeu a visita de qualquer um de seus familiares quando foi detida outras oito vezes. Agora protegida pela Polícia Federal, a jovem não teria tido contato com a família nos últimos três meses, período em que entrou e saiu da delegacia por cometer vários delitos.
- A jovem estava abandonada pela família. Ela foi presa oito vezes e ninguém da família nunca tinha ido à delegacia - disse o bispo, que há dez anos acompanha a situação de crianças, adolescentes e mulheres no sistema carcerário do Pará.
Para o bispo, uma série de erros, que inclui o descaso da família, fez com que a adolescente passasse por situação de abuso e violência na delegacia da cidade:
- Todo mundo errou. Além da família, teve a polícia, que não conferiu se a menina era ou não menor de idade, a Defensoria Pública do estado, que não acompanhou o caso, o Ministério Público, que não avançou nas investigações, e o Judiciário, que aceitou a denúncia contra a jovem sem atentar para a idade dela.
Após a denúncia, o governo federal incluiu a garota e o pai no programa de proteção às testemunhas. Os dois foram levados para Brasília. Sobre as responsabilidades do governo do Pará, o pároco disse:
- O governo do estado agiu da forma que poderia. O governo assumiu no dia 1º de janeiro, e esse é um descaso de longe.
Segundo dom Jovenalli, dos 143 municípios do Pará, apenas cinco ou seis mantêm delegacias para receber mulheres. Ainda assim, de acordo com ele, nenhum desses distritos são adequados para acolher adolescentes infratores.
O sociólogo Sérgio Adorno, coordenador do NEV (Núcleo de Estudos da Violência) da USP, chamou de grande escândalo o fato de uma adolescente de 15 anos ter ficado presa com detentos numa cadeia do Pará. O pesquisador, que esta semana recebe estudiosos do mundo todo para um seminário internacional sobre crime organizado e democracia, disse estar envergonhado pelo Brasil viver uma situação como essa:
- Tenho profunda vergonha. Me sinto como se tivesse numa sociedade sem leis. Fico incomodado que as autoridades agora venham e digam ou "eu não sabia". Ou que tenham de baixar um decreto para que as leis sejam cumpridas. O papel do governante é cumprir as leis.