Título: Saneamento levará 115 anos para chegar a todos
Autor: Menezes, Maiá
Fonte: O Globo, 28/11/2007, Economia, p. 27
AVANÇOS E DESAFIOS: Sete crianças morrem diariamente por causa de doenças em áreas sem condições sanitárias
Segundo estudo da FGV, 51,5% da população não contam com rede de esgoto. Brasil investe um terço do necessário
Pelas ruas e vielas do país escoam os sinais do descaso com um item básico para a saúde: o saneamento, que ainda não é realidade para 51,5% dos domicílios brasileiros. Mantido o atual nível de investimento no setor, a expectativa, projetada por estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) divulgado ontem, é que a universalização do acesso ao serviço só seja atingida em 2122, ou seja, daqui a 115 anos. De 1992 até o ano passado, o índice da população que conta com saneamento em suas casas aumentou dez pontos percentuais. O reflexo do lento crescimento é ainda mais cruel com as crianças: sete morrem no Brasil diariamente, infectadas por doenças que se proliferam em áreas sem canalização de esgoto.
- É um Airbus A-320 caindo por mês, lotado de crianças - compara Luiz Felli, presidente do Instituto Trata Brasil, que encomendou o estudo à FGV.
Ele usa também um argumento financeiro para defender investimentos no setor:
- Para cada real investido em saneamento, consegue-se economizar R$4 em Saúde.
Na estimativa do instituto, o Brasil investe apenas um terço do que seria necessário nas obras de ampliação da rede de esgoto. Hoje, o investimento corresponde a 0,22% do PIB. Nas obras do PAC, estão previstos R$10 bilhões por ano para o setor. Nas contas do Tratar Brasil, para a universalização do saneamento, é necessário aplicar cerca de R$11 bilhões por ano, até atingir R$220 bilhões.
Recurso esperado ansiosamente por gente como Maria José Jesus, de 57 anos, voluntária da Pastoral do Menor, no Cachambi, na Zona Norte do Rio. Entre as 110 crianças assistidas pela pastoral, muitas moradoras da comunidade do Pica-pau, repleta de palafitas, grande parte aparece com alergias na pele, vinculadas ao esgoto deficiente.
Os dados, divulgados pelo professor Marcelo Neri, da FGV, com base em informações da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2006, mostram que a mortalidade infantil cai 4,7% em áreas com esgoto tratado.
- Para chegar à escola municipal da região, as crianças têm que passar por cima do esgoto - conta Maria José.
- Nas crianças de 1 a 6 anos, esse efeito é ainda mais drástico, porque elas têm o hábito de colocar tudo na boca. E é dramático, porque 95% dos problemas causados pela falta de saneamento não estão visíveis. Eles se refletem no desenvolvimento da criança - afirma o pediatra Anthony Wong, diretor do Instituto da Criança, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
Os dados divulgados ontem fazem parte da primeira parte do estudo, que trata da relação entre saneamento e saúde. De acordo com informações organizadas pelo Instituto Tratar Brasil, de 1996 para cá, 700 mil internações hospitalares anuais foram causadas por doenças relacionadas à falta de saneamento ou ao saneamento inadequado. Em 2005, 900 mil pessoas foram internadas. Os dados são do Sistema Único de Saúde (SUS).
O reflexo de um investimento em saneamento também é nítido na sobrevida da população. Dados da FGV mostram que, para cada percentual de aumento da cobertura de esgoto sanitário, a expectativa de vida aumenta 0,18 por ano. O saneamento diminuiria também o percentual de internações de crianças com menos de 10 anos em hospitais - hoje, 65% delas são provocadas por males causados pela falta de sistema de esgoto adequado. Cerca de 80% do esgoto produzido no país não recebem qualquer tipo de tratamento.