Título: Pesquisas indicam vitória de Chávez
Autor: Galeno, Renato
Fonte: O Globo, 03/12/2007, O Mundo, p. 22

Sim à reforma da Constituição ganha em referendo com alta abstenção, segundo boca-de-urna.

Três pesquisas de boca-de-urna, feitas por grupos governamentais e neutros, apontam uma vitória do ¿sim¿ no polêmico referendo sobre a proposta de reforma constitucional do presidente Hugo Chávez, realizado ontem na Venezuela. Milhões de venezuelanos foram às urnas em clima de tranqüilidade ¿ em parte creditado a uma alta abstenção, em torno de 50%, segundo levantamentos iniciais, que teria auxiliado a vitória de Chávez por entre seis e oito pontos percentuais de vantagem. Se o resultado oficial for este, será a vitória mais tímida desde que o líder venezuelano subiu ao poder, em 1999. Ele nunca perdeu uma eleição nem um referendo.

Presidente festeja democracia

Antes mesmo de qualquer resultado oficial ser divulgado, milhares de partidários de Chávez saíram em comemoração pelas ruas de Caracas, vestidos de vermelho, portando bandeiras e acionando a buzina de veículos.

Em todo o país ocorreram apenas fatos isolados de violência e violação das normas eleitorais. Segundo o comando do Exército, somente 45 pessoas foram detidas, num universo de 16 milhões de eleitores.

Até mesmo o presidente, conhecido pelos longos e provocativos discursos, falou por apenas cinco minutos após votar, em Caracas.

¿ Somos especialistas em votar. Nunca antes se votou tanto ¿ disse, completando que aceitaria qualquer resultado. ¿ Esta jornada eleitoral é um triunfo para a democracia. Aqui se cumprirá a vontade popular.

Diferentemente do fusca vermelho no qual chegou para votar ano passado, Chávez foi levado ao centro de votação num formal carro negro, junto com seguranças. Ele e todos os seus guarda-costas estavam usando camisas vermelhas. Chávez parecia estar tranqüilo. Antes de votar, fez o sinal da cruz. Ele discursou com um de seus netos no colo.

¿ Vocês, jornalistas, poderão dizer a verdade: que esse é um país onde se vota com alegria ¿ disse ele, que, durante o comício de encerramento da campanha ameaçou expulsar repórteres estrangeiros que violassem normas eleitorais. ¿ Aqui expressamos as verdades, às vezes de modo duro. Mas todos nos expressamos.

Nas ruas de Caracas, os centros de votação pareciam mais vazios do que na reeleição de Chávez ano passado. Filas maiores só eram vistas em locais onde máquinas de votação apresentavam defeito.

Yon Goicochea, um dos principais líderes do movimento estudantil que rechaça a reforma, alertou ainda durante a tarde de ontem que havia um pequeno comparecimento às urnas em locais em que se esperava que o ¿não¿ vencesse.

¿ Nos bairros de classe média, o número de pessoas que está votando não está sendo tão grande quanto deveria ¿ afirmou ele.

Apesar da tranqüilidade nas ruas, alguns integrantes do governo fizeram acusações à oposição e aos meios de comunicação.

¿ Algumas emissoras de TV e rádio estão insistindo em fazer o mesmo que ocorreu durante a campanha. Está faltando ética aos jornalistas ¿ disse o ministro da Comunicação, William Lara, que durante a campanha explicou que os canais estatais só falavam com pessoas favoráveis ao ¿sim¿ porque ¿falavam a verdade¿.

Já Adán Chávez, ministro da Educação e irmão do presidente, foi mais direto na crítica à oposição, que supostamente planejava realizar protestos.

¿ Eles são fascistas ¿ afirmou ele, repetindo o termo usado por Chávez e por altos integrantes do governo durante toda a campanha.

Com a reforma aprovada, a Venezuela sofrerá profundas alterações institucionais. O principal resultado será uma grande centralização do poder.

A mais citada alteração é a possibilidade de o presidente, que já está no poder há nove anos e ficará no Palácio de Miraflores até 2013, disputar um número indefinido de reeleições, prática estranha a regimes democráticos. O país terá o ¿regime socioeconômico¿ alterado para o socialismo, e Chávez poderá fazer a ¿transição¿ para o sistema com plenos poderes e sem limite de tempo.

Chávez ganhou ainda a faculdade de criar comunas dentro das cidades, e grandes regiões abarcando os atuais estados, nomeando vice-presidentes não eleitos. A reforma dá ao presidente total controle sobre as Forças Armadas, que perdem o caráter apolítico; permite que ele decrete estados de exceção por tempo indeterminado, que retiram o direito ao devido processo legal e à liberdade de imprensa; acaba com a autonomia do Banco Central e coloca as reservas internacionais em suas mãos.

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