Título: Lula tenta manter controle do PT
Autor: Aggege, Soraya
Fonte: O Globo, 02/12/2007, O País, p. 3

Partido faz eleição hoje, a primeira após o escândalo do mensalão, sem tratar da crise.

OPT faz hoje sua primeira eleição interna após o escândalo do mensalão, mas não fala em expurgos dos envolvidos no caso. O partido está coeso na defesa do governo Lula e da candidatura própria para a Presidência em 2010. A próxima direção dará as cartas sobre a política de alianças de 2008 e, principalmente, de 2010. Afastado do PT desde 2005, o presidente Lula decidiu se envolver no processo e já escalou nomes de sua confiança que devem voltar a participar do comando do partido para influir na escolha de seu sucessor. Em pelo menos dois acordos internos, o velho grupo que levou o presidente ao poder e se envolveu em vários escândalos de corrupção tenta agora voltar ao comando.

Dirigentes contam que já foram costuradas estratégias complexas que garantem o controle de Lula sobre o PT, ambos em torno do principal candidato, o atual presidente, deputado Ricardo Berzoini (SP).

- Eu voltarei para o partido. Devo assumir uma vaga no diretório nacional pela chapa (da CNB) - afirmou o chefe de gabinete do presidente, Gilberto Carvalho.

Dirigentes do PT informaram que a corrente Construindo Um Novo Brasil (CNB), antigo Campo Majoritário, já tem acordados com o Palácio do Planalto os nomes dos ministros Luiz Dulci (Secretaria Geral) e Patrus Ananias (Desenvolvimento Social) para ocuparem cargos no partido. Da confiança de Lula, eles integram a chapa ao lado de envolvidos em escândalos, como os deputados João Paulo Cunha (SP), José Guimarães Nobre (CE) e Josias Gomes (BA), além da mulher do ex-tesoureiro Delúbio Soares, Mônica Valente.

Articulação com José Dirceu

O próprio Berzoini foi envolvido no caso do dossiê dos aloprados e não era o preferido de Lula, que queria seu assessor especial, Marco Aurélio Garcia, à frente do partido.

De acordo com Gilberto Carvalho, Lula, que estava indeciso em participar das eleições, votará em Berzoini e também no candidato a presidente do PT de São Paulo Edinho Silva, prefeito de Araraquara (SP). Pela candidatura de Edinho, articulada pelo ex-ministro José Dirceu - acusado de ser o chefe da quadrilha do mensalão -, foi montado o segundo acordo interno das forças petistas com Lula.

A candidatura de Edinho serviu como o tabuleiro político de Dirceu e do grupo ligado a Lula para a costura da direção nacional. O lançamento de Edinho rachou a CNB em São Paulo, que tem como candidato oficial o deputado estadual Zico Prado, apoiado pelo atual presidente, Paulo Frateschi. Mas, com o racha, Dirceu conseguiu fechar acordo em torno de Edinho com seu principal rival na disputa nacional, o ministro Tarso Genro, da Mensagem ao Partido, que apóia o deputado José Eduardo Cardozo para presidente nacional.

Formalmente, as costuras são negadas no PT. Apoiado por vários ministros, Cardozo foi o único que não fechou a proposta de fazer oposição a Berzoini num eventual segundo turno. Os outros candidatos já acordaram internamente que deverão fazer oposição à CNB. Os outros dois candidatos com chances de chegar ao segundo turno, deputado Jilmar Tatto, e o secretário de Relações Internacionais do partido, Valter Pomar, da esquerda petista, prometem se unir contra Berzoini no caso de segundo turno. Procuraram Cardozo, mas ele respondeu que vai para o segundo turno.

Para grande parte dos petistas, a estratégia é clara.

- Desse modo, o presidente Lula ganha com os dois grupos: com a CNB e com a Mensagem ao Partido, de Cardozo. Na verdade, está havendo uma recomposição do antigo grupo dirigente, articulada por Dirceu, como sempre foi no PT - disse um dirigente petista.

Outro dirigente diz que Lula está "muito preocupado" com o arco de alianças para 2008 e 2010. Tanto Berzoini quanto Cardozo teriam mais abertura para dialogar com os partidos da base do governo. Ambos aceitariam a participação de petistas da confiança do presidente na direção. No entanto, não haveria um acordo entre a Mensagem e a CNB, dizem integrantes da Mensagem.

Já os outros candidatos defendem alianças com a base histórica do partido, além de serem mais radicais com a candidatura própria. Além disso, tanto o grupo de Tatto, ligado ao presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia, quanto o de Pomar reivindicam mais espaços e cargos no governo federal e causariam problemas ao presidente, principalmente nas relações com a base aliada do governo.

Uma unanimidade as principais candidaturas do PT têm: não haverá caça às bruxas, e, se os envolvidos nos escândalos retomarem o poder, serão respeitados internamente.

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