Título: Delegados defendem colegas
Autor: Éboli, Evandro
Fonte: O Globo, 02/12/2007, O País, p. 13
Foi desumano e revoltante o que os deputados fizeram com a delegada".
Legenda da foto: BENASSULY: delegado-geral disse que menor tinha debilidade mental
BELÉM. Apontados como os principais responsáveis pela prisão ilegal da adolescente em Abaetetuba, delegados da Polícia Civil do Pará, numa união corporativa, tentam contra-atacar. Com o argumento de que delegado prende, mas não guarda o detento - um bordão entre esses profissionais no Pará -, entidades e associações da categoria saem em defesa dos colegas. Até o momento, quatro delegados foram as únicas autoridades afastadas pelo governo do estado por causa do episódio. Entre eles, o delegado-geral, Raimundo Benassuly, que caiu por ter afirmado que a menor tinha "debilidade mental".
Associação pede respeito a direitos humanos de policiais
A principal reação dos delegados ocorreu no fim da noite da última quinta-feira, em Belém, durante audiência com deputados federais da CPI do Sistema Carcerário. Os delegados envolvidos foram interrogados pelos parlamentares. Indignados com o tom e as perguntas feitas a seus colegas, alguns delegados reagiram, e se ouviam gritos como "Essa CPI é um tribunal de exceção". Bastante irritada, a presidente da Associação dos Delegados da Polícia Civil (Adepol), Perpétua Picanço, classificou a sessão como um teatro.
- Esses deputados deveriam respeitar mais os delegados - disse Perpétua, concedendo entrevista num tom de voz bem alto, para que os deputados escutassem.
O momento maior da indignação ocorreu durante o depoimento da delegada Flávia Verônica Monteiro, que estava de plantão no dia 21 de outubro, em Abaetetuba, quando a menor foi presa por três agentes. Ela não exigiu os documentos da menina. Verônica passou o tempo inteiro negando sua responsabilidade e disse que não havia outra cela para onde levar a jovem. Em seguida, a deputada Jusmari Oliveira (PR-BA) perguntou:
- A senhora, quando tomou posse como delegada, fez algum juramento de que iria perder sua sensibilidade como mulher e perder a compaixão pelas pessoas?
Na platéia, os delegados demonstraram incômodo. Um deles pediu a palavra para sair em defesa de Verônica, e, como se estivesse num tribunal de júri, pediu que o questionamento fosse desconsiderado, o que não ocorreu.
- Não posso mostrar neste momento se sou ou não sensível - respondeu a delegada.
Perpétua, de novo, queixou-se:
- Foi desumano e revoltante o que fizeram com a delegada.
Durante a audiência, a Associação Nacional de Defesa dos Direitos Humanos dos Trabalhadores da Segurança distribuiu uma carta, dirigida à "nação brasileira", em defesa dos delegados envolvidos no caso. "Os defensores dos direitos humanos que até agora se manifestaram só lembraram dos direitos que lhes interessam, o que é uma contradição para quem defende os direitos humanos, que devem ser de todos", diz a nota da associação.