Título: Pajelança financeira?
Autor: Batista Jr., Paulo Nogueira
Fonte: O Globo, 01/12/2007, Opinião, p. 7

Desde que o governo brasileiro anunciou que está examinando a possibilidade de criar um fundo soberano, vários economistas do mercado financeiro vieram a público se manifestar contra a idéia. O governo ainda não apareceu com nada de muito preciso, mas a turma da bufunfa não leu e não gostou.

Algumas reações foram até um pouco violentas. Um ex-presidente do Banco Central do Brasil chegou a declarar que se tratava de uma "pajelança" e que "qualquer presidente de Banco Central competente tem de ser contra".

Nesse meio tempo, o fundo soberano dos Emirados Árabes Unidos, a Abu Dhabi Investment Authority, o maior do mundo, adquiriu 4,9% das ações do Citigroup - "pajelança" que foi recebida com grande alívio em Wall Street. O Citibank, como se sabe, atravessa fase de sérias dificuldades, em razão do seu envolvimento na crise do mercado imobiliário subprime. O alívio, diga-se de passagem, veio misturado com certa humilhação. "O maior banco dos Estados Unidos teve que passar o chapéu entre xeques árabes", lamentou o "Wall Street Journal".

A julgar pelo ruído na imprensa brasileira, ninguém diria que os fundos soberanos de diversos países já são, há bastante tempo, atores de grande peso, respeitados e temidos nos mercados internacionais. A "pajelança" está muito disseminada. Atualmente mais de 20 países, entre eles a China, a Rússia, a Arábia Saudita e a Noruega, mantêm fundos soberanos. É o caso também de países pequenos, porém ricos em recursos naturais, como Trinidad e Tobago (um dos que represento na diretoria do Fundo Monetário Internacional).

No passado recente, a expansão dos fundos soberanos tem sido extremamente rápida. O Fundo Monetário Internacional estima que o valor total dos ativos desses fundos esteja entre US$2 e 3 trilhões, podendo alcançar US$12 trilhões até 2012. Já superam os fundos de hedge, cujos ativos estão entre US$1 e 1,5 trilhão.

Os fundos soberanos surgem quando um país começa a acumular reservas internacionais excedentes, isto é, superiores aos níveis considerados necessários para financiar eventuais emergências de balanço de pagamentos ou para administrar com segurança a taxa de câmbio. Nessa situação, existe a oportunidade de criar um fundo à parte, onde os ativos externos pertencentes ao governo possam ser aplicados com mais rentabilidade.

As reservas tradicionais, administradas normalmente pelo Banco Central, são sempre aplicadas de forma muito conservadora, em papéis líquidos e sem risco (títulos governamentais de países desenvolvidos, por exemplo). Elas têm que estar prontamente disponíveis para cobrir desequilíbrios de balanço de pagamentos e intervir no mercado de câmbio. Em contrapartida, a sua rentabilidade é muito modesta.

Já os fundos soberanos têm mais liberdade para aplicar. Podem fazer investimentos de prazo mais longo, comprar títulos privados, ações e até assumir o controle de empresas em outros países. No caso brasileiro, por exemplo, cogita-se financiar as atividades do BNDES no exterior, mediante a aquisição de papéis do banco. Em suma, são investimentos de maior risco e menos liquidez, mas com rentabilidade mais atraente. Administrados de forma profissional, esses fundos podem geram rendimentos consideravelmente superiores às reservas tradicionais.

Por que então o barulho na imprensa e a indignação da turma da bufunfa? Arrisco uma hipótese: a criação de um fundo soberano com parte das reservas, ou com reservas adicionais a serem adquiridas no mercado pelo Tesouro, resultaria em uma certa redistribuição de poder dentro do governo. Perderia o Banco Central, ganhariam o Tesouro e o BNDES.

PAULO NOGUEIRA BATISTA JR. é economista e diretor-executivo pelo Brasil e mais oito países no Fundo Monetário Internacional. E-mail: pnbjr@attglobal.net.