Título: Lula defende a aliança com Chávez no lançamento do Banco do Sul
Autor: Figueiredo, Janaína
Fonte: O Globo, 10/12/2007, Economia, p. 16

Presidente da Venezuela chama colega brasileiro de "sheik do Amazonas".

BUENOS AIRES. Na véspera da posse da presidente eleita Cristina Fernández de Kirchner, os governos de Argentina, Brasil, Venezuela, Bolívia, Equador e Paraguai assinaram ontem, no último ato da gestão Néstor Kirchner, a ata de fundação do Banco do Sul, nova instituição financeira regional que competirá com BNDES, Banco Mundial (Bird) e Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), entre outros. Entusiasmado com o projeto, o presidente Lula aproveitou para defender a aliança entre os países da região e, sobretudo, a parceria do Brasil com os demais governos sul-americanos, com destaque para Argentina e Venezuela.

- Depois da eleição de Kirchner construímos um dos melhores momentos da história do relacionamento entre Argentina e Brasil. Nosso relacionamento com a Venezuela hoje é sólido, muito forte e muito favorável ao Brasil, temos de diminuir essa distância - declarou Lula.

Ele afirmou que "somente forte, unida e integrada a América do Sul poderá ocupar o lugar que lhe cabe no concerto das nações e principalmente criar condições para o desenvolvimento pleno de nossos povos".

- O Banco do Sul será fundamental para viabilizar as iniciativas que necessitamos para integrar nossa região - assegurou Lula.

Os sócios do Brasil no projeto aproveitaram a assinatura do acordo para reforçar seu "perfil antiimperialista" e criticar organismos internacionais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI).

- Até que enfim a América do Sul vai começar a se liberar da dependência financeira - declarou o presidente equatoriano, Rafael Correa.

Chávez: repatriar dinheiro nos "bancos do Norte"

Em sintonia com seu colega equatoriano, o presidente da Venezuela disse que o Banco do Sul é "uma estratégia para a independência". Para Hugo Chávez, falta repatriar "o dinheiro dos nossos povos", que está "nos bancos do Norte":

- Mais de US$500 bilhões nossos estão colocados em bancos dos EUA e Europa, onde pagam juros muito altos.

Usando frases de Bolívar, Perón e San Martín, Chávez afirmou que "somente unidos poderemos ser verdadeiramente livres e independentes". O presidente venezuelano manifestou sua satisfação pelo bom momento que, disse Chávez, vivem os países da região e se referiu especificamente ao Brasil.

- O Brasil tem agora (em reservas internacionais) cerca de US$200 bilhões, o Lula tem muito agora e ainda conseguiu uma reserva de petróleo, o sheik do Amazonas - brincou o presidente venezuelano, que considerou que os países da região estão protagonizando uma "guerra política, econômica e ideológica", contra seus inimigos internacionais.

Já o presidente boliviano, Evo Morales, disse que o Banco do Sul chegou em momentos "em que temos democracias submetidas a seus povos e não ao império". Após os discursos dos presidentes, Cristina agradeceu o apoio de todos e, sobretudo, de Chávez:

- Não é pouca coisa encontrar alguém como o senhor, que resgata as melhores tradições de lutas e emancipação nacional. Ao senhor meu agradecimento por todo o apoio dado aos argentinos.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, assegurou que o Banco do Sul vai funcionar dentro dos princípios da governança dos bancos multilaterais. Será "um banco auto-suficiente, que tem que dar lucro, não poderá funcionar a base de subsídios e não será direcionado a projetos que não sejam rentáveis e eficientes". Segundo o ministro, o capital inicial do banco ainda não foi fixado, mas, pelas informações extra-oficiais, poderia alcançar US$7 bilhões. A Venezuela entraria com cerca de US$3 bilhões, bem acima do que pretenderia injetar inicialmente o Brasil.

Sobre as negociações preliminares, o ministro comentou:

- Estabelecemos os objetivos do banco e a partir da ata de fundação, passaremos a elaborar o estatuto (o que vai durar 60 dias).

Um dos aspectos do estatuto que provocou polêmica foi a origem dos recursos para formar o capital inicial. A Venezuela propôs o uso das reservas nacionais, idéia que não teve apoio do Brasil.

- Os recursos não saem das reservas, serão usados recursos do Orçamento federal. Uma vez constituído o banco, ele vai captar no mercado. Se a Venezuela, por exemplo, quiser colocar as reservas, aplicar nos títulos do Banco do Sul, poderá fazê-lo - esclareceu Mantega.