Título: O poder nas mãos de Cristina
Autor: Figueiredo, Janaína
Fonte: O Globo, 11/12/2007, O Mundo, p. 33

Presidente chama crimes da ditadura de genocídio e pede castigo para seus responsáveis.

Cristina Fernández de Kirchner assumiu ontem a Presidência da Argentina e pediu, em seu discurso de posse, que durante seus quatro anos de mandato sejam julgados e condenados todos os responsáveis por crimes cometidos durante a ditadura (1976-1983). Aos 54 anos, a nova presidente do país, que, como seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007), militou na Juventude Universitária Peronista durante o regime militar, lembrou de Eva Perón e prometeu, emocionada, se inspirar nas Mães e Avós da Praça de Maio.

- Espero que nestes quatro anos (de mandato) os julgamentos que demoraram mais de 30 anos para serem iniciados possam ser concluídos - declarou ela, a primeira esposa a receber do marido a faixa de presidente num país democrático.

Com um olhar emocionado, Cristina defendeu a necessidade de oferecer aos civis e militares acusados de terem violado os direitos humanos "todos os direitos que outros argentinos não tiveram, para finalmente julgar e castigar os responsáveis pelo maior genocídio de nossa História".

- Devemos isso aos que foram vítimas, a seus familiares, às avós, às mães, aos sobreviventes que não podem continuar sendo submetidos à tortura do relato permanente da tragédia. E às Forças Armadas, para que possamos separar o joio do trigo e que os argentinos possam se olhar novamente de frente - assegurou a nova presidente argentina.

Discurso elogia governo do marido

Cristina defendeu o governo de seu marido e deixou claro que, longe de mudar o rumo do país, pretende aprofundar o que foi feito por Kirchner nos últimos quatro anos e meio. Nada de sobressaltos e políticas pendulares, disse ela.

- O senhor conseguiu, junto a todos os argentinos, reverter a sensação de frustração, de fracasso - disse a presidente, que destacou a renegociação da dívida pública, o pagamento da dívida com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a melhora dos indicadores sociais do país, entre outros êxitos do governo de seu marido e antecessor.

Junto com Cristina, tomou posse ontem, como vice-presidente, o ex-governador de Mendoza, Julio Cobos, da União Cívica Radical.

Depois de 12 anos como parlamentar (a presidente foi deputada e senadora), Cristina lembrou de seus anos no Congresso e dos difíceis momentos enfrentados pelo país, sobretudo durante a crise econômica e política que alcançou seu auge com a renúncia do ex-presidente Fernando de la Rúa, em dezembro de 2001.

- Me lembro de madrugadas, fins de semana inteiros, votando o ajuste permanente, o que pedia o FMI, porque senão acabava tudo. Era o que mais ouvíamos naqueles dias. Da política do ajuste permanente da década de 90 passamos ao Parlamento que aplaudia a proeza do calote, de não pagar - afirmou a nova presidente da Argentina.

Cristina antecipou sua intenção de dar impulso a uma drástica reforma do Poder Judiciário, que começou durante o governo de seu marido, com a chegada de novos membros à Corte Suprema. A nova presidente pediu uma atitude construtiva a seus opositores e, também, aos meios de comunicação, sempre criticados pelo casal presidente.

- Meios de comunicação e opositores não são a mesma coisa, mas muitas vezes se parecem - comentou Cristina, em tom irônico.

A nova presidente disse que a educação será um dos eixos de seu programa de governo, além da inovação tecnológica. Para ele, o sistema educacional é um elemento-chave para aumentar a competitividade do país.

- O presidente e eu somos produto da educação pública - assegurou Cristina.

Diante da presença dos principais presidentes da região, ela defendeu a incorporação da Venezuela ao Mercosul e aproveitou para reforçar a posição de seu país na chamada guerra do papel com o Uruguai, conflito desencadeado pela construção de uma fábrica de celulose na fronteira entre os países, considera um atentado ao meio ambiente pelos argentinos.

Alusão a Uruguai causa mal-estar

Apesar da crise bilateral, o presidente do Uruguai, Tabaré Vázquez, presenciou a posse de Cristina.

- Agradeço a presença do presidente da República Oriental do Uruguai, Tabaré Vázquez, e digo com toda a sinceridade que não haverá desta presidente um só gesto que aprofunde as diferenças que temos - afirmou a nova presidente.

Mas Cristina fez questão de reiterar a acusação feita por seu país na Corte Internacional de Justiça, em Haia.

- O Tratado do Rio Uruguai foi violado - enfatizou Cristina, criando um clima de constrangimento para seu colega uruguaio.